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O Conto do Milênio – Capítulo 2: Punhal da Lascívia / A Sala Esverdeada do Fim
Em meio à gente toda uma delas tinha a marca. Era em sua perna, tal tatuagem feita há décadas. Tinha o destino selado, e não parecia saber. A verdade é que de tudo sabia, e manipulava os contornos até chegar numa resposta convincente. Fingia-se de cientista – era assassina, psicopata e sádica.
Um cientista nunca deve saber de tudo, e foi isso que a entregou para meu olhar rápido, tolo e enganado. Ela parecia gostar de acreditar que sabia de tudo, mas não percebeu que essa era justamente sua maior fraqueza.
Sempre me considerei uma boa cobaia, mesmo que o experimento me custasse a própria vida. Percebi as armas. Para o fuzil dei munição. Para a pólvora, cuspi fogo.
Para a faca, ofereci meu pulso.
Não era deusa, nem nada parecido. Não era gentil, nem ímpar. Era tudo o que se via, mas o era de modos extremos. Não dormia. Um copo de café não era suficiente. Uma noite também não.
Eu queria a certeza. A certeza não vinha… E eu implorava pela certeza.
Numa semana de festividades, eis que bateu à minha porta a revelação. Não era a certeza, mas uma mensageira. Tinha voz colapsada dentro da agonia, e me dizia em tons claros aquilo tudo o que me devia ser dito, mas era escondido pelas armadilhas do mesmo mar.
Andando por dentro da floresta, acabei por descobrir fogo. E o fogo queimava as folhas, e deixava tudo menos e menos esverdeado. O mundo era tomado pela civilização; era triste.
Por outro lado, nada eu poderia fazer quanto ao rumo das coisas, senão as coisas minhas. É impossível mudar o caminhar do universo, mas está ao nosso alcance encontrar nossos próprios passos à grande avenida por onde passam os carros carnavalescos.
- Norton Green. Prévia Diretriz. 1856, Relatório Superfície. Excerto.
E tudo se passava diante de minha mente enquanto o béquer carcinogênico era preenchido por uma bebida escura e forte. Penso eu que podia ser petróleo. Os bêbados brindavam ao barulho; as portas ficavam abertas a quem quisesse entrar, e as curvas da luz destoavam da realidade local.
Era confortável se sentir deslocado do próprio andamento do mundo, então bebi mais uma dose.
Sentado numa sala esverdeada, caindo aos pedaços, a cadeira é o que me resta das minhas lembranças passadas e dos cheiros bons que já sumiram. São imagens desprendidas e desapegadas da realidade e das tessituras compassadas que formam as grandes cadeias morais… São as traduções mais honestas de todas.
Claustrofóbico dentro do meu próprio pesadelo, procuro por alguém para me dizer algo real. Acho, enfim, alguém que se mostra cercada por gente igualmente fétida e que me causa a mesma sensação de claustrofóbica. São dez minutos no meio da madrugada estrelada e cheirando a cerveja barata, mas ela continua a se vestir como uma mulher bem arrumada para as conversas secas que acontecem nesse meio tempo.
- Norton Green. Impressões sobre o efeito do desmatamento em ordens públicas de catástrofe. 1876. Excerto.
À sala eles, ébrios, e elas, tomadas por devassidão, se deitavam, gritavam, escalavam por cima das janelas, e a noite pulsava no mesmo ritmo da inconseqüência. Novos e velhos se juntavam na quebra das leis. Mundos se contorciam aos sofás das regras.
O começo era não dormir.
Algo vinha de dentro e queria ser expelido à boca da assassina, enquanto esta apenas me mostrava delicadamente as lâminas afiadas, as mesmas que me conheceriam tão bem depois de um intervalo.
Das semanas veio o silêncio, e do silêncio o filme artificialmente colorido e sonorizado do começo do século passado.
Um médico e um monstro. O louco que preside o asilo e controla o sonâmbulo. O circo ainda estava lá.
Quando o tempo parou, a assassina e sua faca entraram por minhas mãos, e espalhei meu sangue por cima dos cabelos, das roupas e do chão. Não havia conceitos. Nada se livrava dos espirros. Era o ladrilho, era a pia, era a parede, era a bíblia.
Ela ria, e sussurrava para que não parasse até que minha última gota de sangue fosse expulsa do meu corpo – erro bobo; já nem podíamos saber que sangue era meu e que sangue era dela. A única diferença é que por dentro de tão sádica criatura corria um sangue tão doce quanto jamais havia provado até então.
O gosto do meu já era bem conhecido por mim mesmo, e não sei mais se é doce ou salgado ou amargo. É apenas meu, e isso de maneira magnificente. Assim como tinto e seco é o vinho que mais gosto, tão somente meu é o gosto que mais aprecio.
Não havia, entretanto, problema em degustar o doce que emergia da psicopata.
Costumamos nos sentir mais vivos à medida que a vida vai se esvaindo. Carreguei-a, enquanto todos nós dois, ensangüentados e quase desmaiados, aos meus ciclóides. Não era uma diferença gritante, mas minhas mãos espalhavam ainda mais sangue agora pelos lençóis, e minha boca mordia e fazia escorrer ainda mais glóbulos dentro do corredor.
A casa toda, lentamente, ficava tomada pelo suco rubro do anti-pensamento. N’outro dia, sabia eu, tudo seria carregado com a água que limparia o chão e os cobertores e as roupas, mas pouco importava. Já não tínhamos mais sangue, qual seria o problema em perder um pouco de boas memórias?
Dali adiante corremos todos, e o contato mais próximo depois do assassinato consentido foi uma dose de café. O café mais amargo de todos, uma noite mal-dormida e impregnada por certezas.
Veio. Era incômoda, mas lá estava, depois que pedi tanto durante a era anterior.
Veio a certeza.
Sob as Águas de Selene, pt. II
Se a caminhada até os portões do inferno me mostrar que durante todo o tempo acreditei numa natureza justa que não nos esconde a verdade, em vez de decaídos disfarçados de santos, medrosos e renegados, então eu vou apreciar cada espinho que me for colocado, cada fogo que me gotejar enquanto, cego, rastejo procurando o meu apocalipse.
- Galileu de William G.; Cena do Julgamento, ato III.
Eu sou um fantasma do lado de fora da casa de assombrações. Um voyeur da minha própria vida, um espectador chocado por minha própria atuação.
Sonne – Acordar, dormir e comer, em dados referenciais, passam a ser somente meras formalidades, meros caprichos matemáticos para explicar razoavelmente um ciclo espiral.
A luz trespassa, temerosa, as linhas que contorno dentro das ruas do calendário. Os dias olham com medo, e atravessam a rua.
O que eu procurava, de verdade, tinha nome, mas não tinha hora; tinha local, mas não tinha lua, e eu achei no meio de todas as improbabilidades – uma flutuação qualquer no espaço me fez ficar desafinado para sempre no tecido do tempo.
- Prelúdio do Tempo, por J. Moose; Teak Aquaria, ensaio XVIII.
Não havia mais ruídos. Eu estava paralisado e além de todas as sensações que me lembrava de existir. Lógica, senso e racionalidade dissolviam-se em frente aos meus olhos que tão acostumados eram a calcular grãos de areia numa ampulheta, sem dar por conta que cada um que fosse, jamais voltaria, embora ainda me iludisse tornando o vidro infinitamente até que escurecesse o Sol…
Minhas mãos doem – os pedaços de tinta são duros e cada letra carrega a dor de se estar contemplando um universo imerso em tudo o que sinto falta e que não acontecerá pelas próximas décadas – uma antecipação finita, mas interminável, onde eu vejo a anti-temporalidade dos meus próprios desejos.
E quem era aquela que bateu à porta, senão essa mesma, que mora furtiva dentro das matrizes inatas de rotação?
Quem girava era eu, embora parado, contemplativo, espectador, especular, voyeur das minhas sentenças.
Eis os que andam apressados à rua da frente, temerosos, alertas por todas as orquestras de temor que vasculham a individualidade do próprio pão. Do lado de dentro do quarto, no entanto, não há mais nada. Ela e eu somos três, mesmo que haja eu mesmo sendo mais um do lado de fora do lado de dentro.
E ela também percebe a si mesma e toma a se juntar no que eu já estava bêbado há muito, e posso sentir suas mãos procurando, síncronas, tanto ela quanto eu mesmo. Inclusive num compartilhamento, o egocentrismo lascivo desperta inspiração.
Mesmo com os olhos semi-abertos e iluminações mínimas das velas, eu entendia perfeitamente sem precisar ver tudo com os olhos.
As línguas encontravam as mãos, que tocavam os lábios, que circundavam os pescoços, as orelhas, e dançavam misticamente com as pernas perdidas num monte de roupas rasgadas e amassadas dentro de um universo novo de uma natureza infinita.
Passou-se o tempo, e as sensações animalescas não se pareciam com aquelas antigas – eram cerebróides; além de intensas, sabiam o quanto eram intensas, sabiam quantas dimensões tiveram de ser trespassadas até que a ampulheta irradiasse os próprios grãos de areia para fora do vidro.
É possível que tenhamos tido milhares de ápices, e nenhum deles nos podia parar – era além do anseio físico e concreto, era transgressor dos próprios limites da dor que me foram apresentados até então, era único, mesmo que num tempo esquisito que girava em círculos imaginários dentro da grande espiral.
O cheiro que ela exalava sem saber me fazia rasgar, além de suas roupas, também os sete vestidos que cobriam a verdadeira imagem da realidade. Forjava-me, com a menor das temperaturas, todos os ensinamentos, e depois os apagava todos, como livros que foram escritos por cima de areias numa lua cheia.
Todos os sentidos se confundiam; eu estava desnorteado. Não conseguia nem eu nem eu mesmo parar de admirá-la, tão perfeitamente errada e tão silenciosamente entregue a mim, afinal.
Pudera, colocaria as areias de todos os mares numa só ampulheta para sentir o cheiro, o gosto e a textura por mais tempo.
Servia a ela, sem conseguir pensar nas dualidades que permeiam poemas místicos da antiguidade que se perdera no meio.
Começara a imagem a esmaecer, as tintas a derreterem, e, aos poucos, me via voltando em passos cambaleantes e randômicos até o telhado da velha casa do passado. Uma garrafa quase vazia ao meu lado, penas tinteiras secas do outro, uma lua gigantesca e constelações e céu bem azul escurecido por cima das poucas e fracas luzes das portinholas daqueles que tinham medo do escuro na cidade. Um ou outro andarilho, ou qualquer vendedor com seu cavalo, e uma sensação única de afeto pela própria concepção de existência.
A certeza, por mais absurda, é um calmante para os flagelos das bordas ásperas que ficam além dos muros. Naquela noite eu vira uma certeza, seja lá por que fosse – eu vira.
A cada passo para baixo nos degraus, uma sensação gélida por dentro de onde eu costumava me aquecer com os tonéis; queria vê-la ali, sentada, ainda, à lareira.
De fato, ali estava ela. Do mesmo jeito, mesma posição, como se não tivessem transcorrido sequer metades de ampulhetas. Olhos abertos olhando o fogo que queimava e aquecia… Por algum motivo, parece que ela também sabia de tudo, e aguardava tão ansiosamente quanto eu por aquele dia.
Mesmo tão diferente, eu contemplava as curvas que se escondiam por baixo dos panos e da capa, e sabia tudo o que iria arquitetar ao mundo real vindo de dentro daqueles olhos e das marcas daqueles lábios.
Eu sabia, e queria fazê-la acreditar que viajaria todos os universos outra vez para reencontrá-la num tempo que haveria de chegar.
O Homem
E o que faz todos pensarmos que há uma novidade? Ali estão os ecos, escondendo-se por baixo da escadaria. A única luz balança por causa dos ratos invisíveis. Há insetos por toda parte, por baixo do chão e por dentro das paredes… Nunca podemos vê-los. Nenhum deles.
Há pedaços de ferro que talvez sejam usados como fôrmas. Há mais gente em toda a casa, e eles só aparecem depois dos ecos atravessarem a catedral das três. E lá se vão eles, pela rua de pedra destruída…
Árvores que crescem por dentro de salões luxuosos, onde muitos dos que não descansam costumam se acomodar, também. E a única luz tal qual pêndulo marcando as batidas de todos os pulsos dos seres invisíveis.
Existe, obviamente, como em toda casa digna de respeito, uma cozinha. E a cozinha possui uma pia velha, e uma mesa de madeira comida por cupins. Mas o alimento todo ainda está fresco, esperando pelos hóspedes.
Tortinhas de tálamo. Não é massa que envolve o recheio, é crânio. Cortes finos e nobres que gritaram desesperadamente à hora em que foram transformados em iguarias.
Jarros e mais jarros de líquido visceral, com algo esbranquiçado-amarelado. Talvez seja a fermentação; não se sabe desde quando isso existe. Nem de quem tenha sido. Provavelmente é de gente daquele tipo de antes – o que foi coberto perpetuamente para encontrar-se com a virgem das virgens, e depois partir numa direção de angústia até o mais profundo de todos os limbos dos infernos.
Ele não passará frio tão cedo… Cabeça furada.
Em algum lugar havia uma escadaria, mas os insetos não foram tão piedosos quanto a ela. Não há sobras. Só há um andar acima, talvez dois, inacessíveis, secretos, abandonados. Quem quiser subir que se prenda aos emadeiramentos velhos e fracos, e quebre os próprios ossos ao ver o que há escondido nos quartos da escravidão nobre.
Riscos na parede, talvez?
Como também se espera de uma boa anfitriã, ela prepara algum outro líquido muito viscoso em sua caldeira lunar. E ferve entre óleo e água, e seus servos inquisidores devem provar cada trago que borbulha. Seres que, aos poucos, começam a cozer por dentro, sem nada poder fazer. Estão eles em Santo Nome; a salvação não é a preocupação. A preocupação é não partir logo.
Nem todos os contos proibidos – pensa um deles – contem tantas descrições. Nem o mais demoníaco e verdadeiro. Nem os entreapocalipses, nem o Livro dos Castigos. Por que havemos nós, de alma pura e catequizada, de sofrer, de cozer, de virarmos um banquete vivo enquanto nosso cérebro é alimentado com o mais tempestuoso dos medos, para, então, também ser removido, jogado à água fervente, e entornado por seres grotescos que riem, cospem fogo e se alimentam de sonhos, pesadelos e gordura?
A catedral diz tanto sobre os Salmos, sobre os Provérbios; no entanto, o que há agora são ecos distantes… Se forem de fato ecos… Não sei o que se passa por dentro de mim, mas arde. Talvez seja meu corpo se acostumando a temperaturas de borbulha. Talvez sejam meus pensamentos borbulhando, talvez seja a cruz que carrego para minha salvação… Ó grandioso, por que me abandonaste…? Eu não sou também seu filho…?
Ezeq, filho do bom ferreiro, passa ao meu lado. Era um bom homem. Era um homem honrado, que trabalhava arduamente por tudo o que queria. Que fazia o próprio pão e empunhava a própria espada em nome da Gloriosa Causa. Um homem honrado que bebeu do mesmo óleo e da mesma água fervente; que comeu os próprios ossos, assim como eu fiz. Que debochou da própria família enquanto era rasgado e enfeitado por adornos satânicos. Que chorou sangue e óleo quente. Que sentiu o cérebro derretendo e descendo pela própria garganta… Que ficou cego, que ficou mudo, que ficou surdo, que perdeu o tato, que só sentia o cheiro da morte cada vez mais perto, misturado com ratos mortos e cadáveres de seus antigos amigos…
Ali, Ezeq. Sendo carregado, amarrado, ainda vivo, de forma em pentagrama férrico. Retorcido, mas com ossos. Claro que há ossos, podemos vê-los saindo pela cintura, pelos ombros… Ele não pode gritar, ele não pode ouvir, ele não pode ver.
Eu não quero sair daqui vivo. Não quero carregar nesse mundo todas as visões e todas as memórias. Sou um homem digno e religioso, eu mereço a salvação, eu mereço todas as rezas que fiz, eu mereço todas as águas que carreguei pelo Seu nome, eu mereço a Nova Jerusalém, eu mereço meu portão, eu mereço minha sanidade, eu mereço uma pós-vida digna, eu mereço um lugar sem tanto desespero, eu mereço um lugar onde o trigo não acabe; eu mereço um lugar onde possa ficar bêbado com o mais Sagrado dos cálices de ouro, eu mereço tudo o que sei que mereço. Eu rezei por isso, eu catequizei por isso. Quando preciso foi, eu matei por isso.
Derramei o sangue de crianças possuídas e de mulheres canhotas e de bruxas para salvar o meu próprio. Levei A Palavra. Eu não quero sair daqui vivo.
Eu não profanei o Santo Nome em vão. Eu não questionei a autoridade. Eu não desobedeci sequer meio mandamento.
Eu fui o único que verdadeiramente tomou cada versículo dos cantos de Salomão, ao capítulo centésimo trigésimo terceiro.
Vinho / Rua / Madrugada
Muitas pessoas falando pelo fio de cobre… Vilões e ferreiros todos ao mesmo tempo… Confusos… Cheios de pausas… Algo a ver com sumiços e fusões… Hutchison ou qualquer coisa assim…
Andando pela madrugada, eu sei que não vou encontrar ninguém pelos caminhos escuros. Mas alguma lembrança de civilização ainda é vívida. Ainda sinto os crimes, todos eles… O rubro sendo espalhado pelo chão escuro, parecendo um óleo diesel qualquer de algum carro qualquer…
Parece uma luz, parece um trem, mas é só outro poste. E continuo andando, procurando insetos e contos, histórias e lugares escondidos. Às vezes faz muita falta um lugar escondido, mesmo nessa cidade desprovida de gente. Lugares escondidos trazem abrigo, trazem uma sensação única.
Mandaria uma mensagem, se tivesse algum contato. É desolador. Os bares todos desertos, as calçadas, as indústrias. As indústrias… Não sei o porquê, mas consigo imaginar ainda toda a parafernalha em movimento, é tão real… Mas sei que nada disso existe. Só parece que existe. A maçaneta, a garra, agarra; o lubrificante, os restos industriais, a gordura misturada com a terra e com a grama do lago morto.
E o vinho?
Estive me lembrando de você hoje, tomei vinho. Não muito, não consegui ficar bêbado. Mas o cheiro do vinho, a cor do vinho, o gosto do vinho, o som do vinho misturado com o som das pedras, eu me lembrei de você. E nem tomamos vinhos, veja.
Foi uma clara memória de tudo o que não aconteceu, ou talvez não tenha acontecido. As taças cristalinas, balançando misticamente o roxo do vinho tinto. O primeiro gole, o olho esquerdo no olho esquerdo, e pulando para o direito… E pernas. Pernas, coxas, cinturas, todas entrelaçadas ao mesmo ritmo dos goles de vinho. E nem estávamos sem roupas ainda.
Era mais ou menos por um lugar desses. Algumas velas… Até que é bom, em certo ponto, viver numa época onde a eletricidade é privilégio, é de poucos. Temos as velas, quem precisa dos bulbos elétricos quando se tem velas. Velas simples, de fato, mas que serviam muito bem, e servem muito bem. Um clima meio avermelhado; em certo ponto o roxo do vinho era até ressaltado. E o cheiro misturava-se com o da madeira. Você sabe, é tudo de madeira. Mesas, móveis, cama… Apesar de estarmos no chão, que também era de madeira.
Um ou outro livro de algum escritor perdido, aberto e esquecido em qualquer capítulo. Talvez o livro fosse apenas decorativo. Suas graciosas mãos, quando não estavam segurando a taça, também passavam delicadamente pelas páginas amareladas. Como se quisesse seduzir as palavras, como se quisesse dançar com todas elas.
Enquanto as suas dançavam com palavras, as minhas dançavam com cada pedaço seu. Dos cabelos até o que conseguia atingir dos pés, nas posições mais malucas que conseguiríamos imaginar. Naquela noite você era exatamente como o vinho. Despertava todas as sensações, aguçava todos os sentidos ao mesmo tempo.
Também é claro em minha mente imaginativa você quase tirando sua… Sua… Como se chama mesmo essa roupa que você usava por cima? Bom, tanto faz. Você quase tirava. E eu quase acreditava. E só conseguia esboçar uma quase risada.
Talvez você estivesse certa sobre ser suscetível. Você quase tirou a roupa… E por isso senti-me no dever de dar uma pequena ajuda. Prometo que comprarei outra igual àquela. Desculpe tê-la rasgado. Mas foi legal, de qualquer forma.
E sabe-se lá se eu já estava muito bêbado, mas você também tinha gosto de vinho. Sua boca, seus lábios, seu pescoço, sua orelha, sua nuca, até o pouco de cabelo que inevitavelmente vinha à minha boca. Cada pedaço seu era como o vinho, e por isso eu conseguia apreciar tanto e por tanto tempo. Qual a graça de tomar uma garrafa do melhor vinho grego em poucos minutos…
Já estávamos entrelaçados faz tempo, e agora também eu conseguia prestar atenção em como as línguas se entrelaçavam. Não era frenético, mas era intenso. Uma música lenta e complexa ao mesmo tempo.
Você sabe… Quando pensei em escrever uma carta a você sobre tudo isso, não pensei que ia ter mais que duas linhas… Mas não sei por que estou surpreso. À tarde, naquele dia, eu também não conseguiria imaginar o que seria aquela noite. E minha imaginação é bem vasta, como sabe.
A garrafa vazia e deitada, as taças cristalinas descansando sobre o tapete, vazias também. O livro na mesma página, entreolhando. A vela quase no fim. Barulhos silenciosos, sem muito alarme. Agora não eram só as pernas e coxas entrelaçadas. Era tudo. E tudo deslizando sobre tudo, tudo esfregando sobre tudo. Tapetes, mãos e lábios. Lábios.
Não sei quanto tempo você demorará em ler tudo isso… Mas foi o que se passou nos poucos minutos em que tomei alguns goles de vinho ontem. Tudo tão real e vívido como se fazem poucas memórias que tenho.
Uma noite memorável. E só eu e você e o livro e o vinho e a vela sabemos todos os detalhes que omiti.
- Sisnt; 161 0128 1937
Mas ouvir a música da cidade morta é intrigante. Até mesmo perto da construção abandonada onde achei tal texto… Quando se esforça para se ouvir um som, ele vem. Mesmo que a cidade esteja completamente deserdada.
Tudo flui, em todo lugar. Se não há pessoas, crie-as. Se não há música, componha-as. Se não há Sol, então ilumine.
Os contextos estão todos jogados. Lembro-me muito bem de muitos manuscritos, como se fossem parte de mim. Lembro-me dos parágrafos, das estrofes e dos desenhos.
Mas não vejo necessidade em contá-los a todos que queiram saber. Não preciso contá-los, é só ler os arquivos. E saber ler cada parágrafo, saber ler cada estrofe, saber ler cada desenho.
A base se aproxima, e aqui é o último momento em que me lembro de estar sóbrio. E o último segundo que me lembro, provavelmente, é algo relacionado a um céu se fechando cada vez mais. Vai chover. E não sei quanto os comunicadores aguentarão. Preciso ir rápido.
Grato.
PS: Cardeal V / Roma XVII – O interruptor; encontrei defeitos nele. Favor mandar sobressalente. E as válvulas H35-CH estão organicamente (que ironia) defeituosas. Peço reposição, sobretudo quanto ao material sulfuroso.
Caesar
III – Saloonbre
Buscando novas páginas
De um velho livro lido
Enterrado às encostas de qualquer montanha
Queimado por qualquer Sol desfalecido.
O circo ia e voltava, caravanas cheias de especiarias das mais distantes terras que a vista poderia imaginar existir em tão pequeno grandioso mundo. Teatrais dramas e comédias, sobretudo as comédias, e o teatro enchia de gente. Quinhentos, ou quase isso. Riam, ofegavam, gritavam, falavam e bebiam champanhe.
Foi então, depois, à carruagem até mais uma taverna. Garrafas, mais garrafas, e sequer tinha começado sua noite. Olha para a ampulheta e para o calendário universal, a noite estava em seu ninho, pronta para o vôo. Um último gole e levanta-se.
Cambaleia um pouco, mas nada de agravante. E segue a trilha sem carruagens. A Lua refletia o Sol, e o tijolo prateado brilhava ainda mais. Alguns ruídos vinham da taverna do final da cidade, e era para lá que seguia. O livro do mago, enquanto isso, dizia sobre os nomes.
Entra, e sobe a escadaria. Um dia, há muitas eras, poderia sentir-se o cheiro da fumaça e da neblina que ocorrem quando dimensões tão abstratas confundem-se. Dessa vez, porém, o céu estava um tanto mais limpo, e as únicas nuvens estavam a uma considerável altura. Então pega uma mesa.
Outros antigos jogadores, suas cartas em mãos, meretrizes vagueando ao longo do recinto. Saliências, lábios, maquiagens. As meretrizes se abraçavam, apertavam, esfregavam, suavam, mordiam e os bardos cantarolavam, nesse meio tempo, sobre as correlações e sobre a distância. A taverna, tomada de bêbados e belas ninfas, parecia gritar junto aos bardos. Cada compasso, cada corda.
Havia uma, entretanto, que confundia as palavras e os copos. Não se sabe exatamente o que acontecia dentro dos dendritos, ou o que as correntes tilintavam quando os ventos espalhavam pelo salão o perfume tão único. Era outra sensação, mas não outro cheiro. Este, incrivelmente, parecia permanecer em certas ocasiões em pessoas tão distintas.
Mas não era uma meretriz, e tudo o que Caesar podia fazer era olhar de longe. No máximo aconchegar-se um tanto de passos e só. Preferia, então, continuar seus jogos e suas bebidas. Estas se entregavam como sempre.
Junto aos companheiros de tantas caçadas, subiu à mesa. Levantou uma taça de vinho, e ofereceu-a a todos os que, do Grande Monte, bradavam seus contrabaixos junto aos bardos.
Três, uma carruagem cruzou a trilha, solitária. Não havia tantas preocupações que o tempo se encarregaria de trazer. Caesar viu-a sumir no horizonte, até onde acabavam os tijolos prateados, adentrando pela floresta. Desejou boa viagem e saiu do salão.
IV – Os Sete Mares
Um homem precisa viajar, disse certa vez o Grande Navegador. Como Roma fora, todas as estradas levavam ao rio. Não havia, entretanto, necessidade de navegá-lo arduamente, uma vez que pontes foram erguidas para as carruagens e carroças e pernas e batatas. Algumas curtas milhas, florestas ao redor de tijolos, chaminés ferreiras erguiam-se próximas aos alambiques, estes pareciam brotar feito árvores dos brotos do tempo.
Entra a chuva.
Fita a relva
Vaga as finas estruturas
O tempo, o espaço,
Como se ourives montassem esculturas.
Um posto de observação, um ponto de encontro entre trilhas, e ali então resolveu esperar pela próxima diretriz. Eis que a janela se abre, primeiro para um grito embriagado, e então para os olhos da francesa. Ela chama para dentro, diz que conhece para onde ir, como ir.
No meio tempo, Caesar refletiu sobre vértebras. Discos e ossos, medulas. O que era a postura correta? Por que era a postura correta? Ao seu lado, a francesa largava-se de qualquer jeito sobre o banco reclinado, não era posição de qualquer forma ergonômica, mas era de extremo agrado aos olhos de quem via. Não possuía fartos atributos, mas por algum motivo despertava os instintos mais primitivos… Quanto pleonasmo.
A viagem toda pareceu encurtar assim que ele começou a reparar na excentricidade elegante da francesa. Pudesse mudar o mapa, faria. Colocaria o destino há mais milhas que o necessário, pelo simples prazer de despi-la com os olhos.
Chega, então, ao local demarcado com um X. Mais criaturas andavam para lá e para cá preparando as bebidas e as caças. Havia de ter uma grande festa na mesma noite, e Caesar chegara, como sempre, antes. Mesas vazias, mas algumas bebidas já disponíveis, e nelas ele conhecia um pouco mais da cidade dos rios. Os cheiros, os gostos, as texturas dos rios que cortavam os eucaliptos.
Ao passo que começavam a chegar as caravanas de longe, mais e mais gente adentrava, mais e mais bebida era tomada. Num momento de distorção (provavelmente provocada por alguma das bebidas eucalípticas), Caesar pensou ver a francesa, a anfitriã e mais uma ou duas iniciando um festim. Viu não conseguir conter-se e se aproximou. De primeiro momento, ouviu os estalares e cochichos e leves gemidos, depois prestou atenção no aroma florestal das bebidas derramadas. Estendeu a mão, ainda confuso, e nesse instante tinha certeza absoluta que não tinha certeza de mais nada: se era realidade, o que quer que fosse a realidade, ou se era outro delírio causado por tantas humanidades juntas. Qualquer que fosse, não pararia. Continuaria até que fosse acordado, até que acordasse no chão e percebesse que nem saiu do lugar. Continuaria até que as árvores caíssem diante de seus olhos. E continuou de fato.
No outro dia, juntou seus pertences, usufruiu de alguns restos de bebidas e partiu logo cedo. Nem pôde olhar atentamente outra vez a francesa, o calendário circular continuava correndo pela parede.


