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Prólogo Voynich – Hospital

A medida mais precisa é também a que mais angustia. O tempo corre entre os prédios e distorce até o mais sólido dos contornos, enquanto os giros amortecem a sensação do corpo consciente que questiona o porquê dos túneis tão velhos ainda existirem.

Levanta-se, das grades de um pesadelo, a escadaria para o lado avesso da parede desconstruída. Uma janela onde antes havia tijolo – um mundo inteiro afinado em outros tons.

Tentei olhar ao lado de fora, mas não havia mais o que olhar. A cidade toda desapareceu, em poucas horas. Os que conversam comigo nada são senão mortos. Todos nós estamos dizimados a derreter, a nos vermos em formas podres, caindo aos pedaços pelos chãos, arrastando-nos entre as grades… Não há o que fazer. Respiramos o ar venenoso da fissão dos átomos.

Estamos mortos.

Antes que minha face se desprenda de meu crânio, quero me lembrar de como sou. Quero me lembrar de como é cada fio de cabelo, quero me lembrar de cada arranhão e cada dor, antes que todas elas se juntem numa somatória do purgatório. Um pouco antes do fim, quero conseguir ler – se ainda meus olhos estiverem em suas órbitas – sobre um pouco desse tempo de ontem. Eu mesmo amanhã não vou ser nada senão uma massa em decomposição acelerada. Um monstro.

Os pacientes, todos, também estão mortos. Alguns foram poupados de saber. Outros já tem a certeza – mesmo que nada lhes tivesse sido dito.

Há, neste complexo, cerca de cento e trinta leitos, divididos em sete quartos. É uma matemática absurda, mas os quartos são suficientemente grandes. Há mais de um mês o cheiro de vômito ficou impregnado até nos salões mais limpos. Talvez o vômito tenha entrado em mim, de alguma forma. Talvez os insetos sejam uma alucinação do meu asco. Talvez as paredes grossas que se esfarelam há tanto sejam apenas uma metáfora das minhas vistas…

Os pacientes são como iscas de eletrodos. As máquinas, as bobinas, os motores passam por pescoços, e por pés, e por fluidos, e por infecções e por ninhos de baratas, e entram nas paredes, e saem pelas janelas… O cheiro do metal enferrujado se mistura com o cheiro da doença, com o cheiro do câncer, com o cheiro da ferida que não cicatriza, com o cheiro das tripas que se enojaram do corpo que habitavam e foram expulsas por si próprias em frente a todos os outros em meio a uma tarde ensolarada quando ainda havia Sol…

Um giz, ataduras, álcool, óleo e um pouco de luz carbônica tentam, em vão, distrair-me nessa longa noite que se aproxima, mesmo que ainda sejam três da tarde.

Não há luz além da lamparina. Uma nuvem se estendeu pouco depois de todos fugirem. Uma sirene gritou por metade de um dia, antes de ser jogada apenas aos ecos. É como se tudo houvesse se transformado de repente – uma parte de mim viu o que aconteceu; outra parte tem certeza que tudo foi uma alegoria.

Rádios não funcionam. Diálogos não se encaixam. Há apenas nós, mortos, e os insetos que haverão de sair das tocas quando todos dormirmos distorcidos, derretidos.

Antes que eu me cegue, quero me lembrar de como eu era ontem.

- L. Grlnd; PRYPIAT, 9-13/Sh

Uma nova paleta se estende quando a luz lapida o mundo. Cada espaço conhecido se torna um fractal novo. Tudo – um grito.

O Conto do Milênio – Capítulo 3: Lectures on Deconstruction

E isso tudo que vi, continuou o mestre, não me disse sobre o funcionamento do Universo, como fosse uma entidade alheia – disse tão somente como funciona o próprio ser humano. Você, eu, qualquer um daqui, de qualquer partido político, que siga qualquer das tolices, concorda que um mais um é igual a dois. Do princípio básico da construção do pensamento, emergiu isso tudo que vocês anotam nos cadernos.

E o que é uma álgebra? O que significa a álgebra? Algum de vocês, docentes de matemática que me ouvem, sabe me dizer o que significa os nomes disso tudo que ensinam? E o que é a matemática, afinal? O que significa matemática? E essas convergências todas? Como podem tantas leis alcançarem o que parecem ser as mesmas águas, mesmo uma não tendo a ver sequer com o escopo de existência da outra?

Desde que a era antiga acabou e a nova começou, há quem pergunte. Há quem esteja simplesmente satisfeito, também, e são pessoas com igual honra e competência. Não trata, caros, a ciência, hoje, em se compreender as coisas. Trata de construir, cuspir uma idéia antes de todo mundo, idéia que possa ser aplicada também antes de todas as outras, e gere alimento – seja pão, seja sal, seja um número. Há quem não note diferença, com todo respeito, entre um pedaço de pão e um número escrito em papel.

A construção dos padrões e das definições: é essa a chave. Todas as teorias que aprendemos foram definidas segundo conceitos bem fechados e bem compreendidos, e não há outra escapatória para um conhecimento tão cíclico – as pontas acabam se encontrando n’algum ponto da corrente do rio. Pode demorar, pode ser muito rápido. Pode ser mera coincidência, pode unir os Universos. O que pensa demora, e é possível que sequer chegue a algum lugar na selva dos conceitos. Não é viável para todos, percebam.

É mais viável dizer qualquer besteira convincente, em vez de convencer a si mesmo de que tudo está errado e precisa ser recomeçado.

E o que aprendemos desde a antevéspera do recomeço? Aprendemos que há uma doença. Mas custa caro tratar de tamanho tumor, então deixamos apenas crescer, e que as entidades divinas digam a hora em que tudo deverá ruir e escurecer. É o que fizemos, e aqui estamos, já no vigésimo terceiro ano do novo milênio, contemplando o caos.

Olhem ao redor. Depois do contorno da esquina, a Rua 32, com seus bares e seus casebres envelhecidos pelos impostos. A avenida principal, cheia de carros em plena tarde de domingo. A silhueta das boas senhoras, cheirando o pó da realização. A noite encontrando a poeira, e tudo.

Logo ali, naquela estrutura cúbica, livros vermelhos. Mais e mais livros vermelhos. Pessoas, bebidas, cigarros, e muito barulho. Diz-se o que se quer dizer, pregam-se os métodos mais inadequados, e depois se reclama da falta de liberdade para expressar tamanhas tolices. As tolices, ao contrário do que se pensa, e ao contrário do que se quer acreditar, são as que mais encontram liberdade de expansão. Dados experimentais, os quais serão distribuídos entre vocês ao final da aula, mostram que é proporcional à quarta potência do raio da esfera livre de fricção. Confrontos, batalhas, sangue e revolta por livros que sequer foram revistos, sequer foram lidos… Mas servem como boas armas quando atirados contra uma cabeça, afinal. Sugiro que consultem o exercício sessenta e oito do capítulo passado, e verão um jeito de calcular o impacto semelhante a um desses livros vermelhos e cheios de cabelo sujo.

Pouco afastado da fumaça, aviões. Mas eles não voam, porque são feitos de plástico e de mentira. Não que a matemática seja verdadeira, mas a mentira que escorre pelas asas de cera dos aeromodelos cheira a restos em decomposição. A vontade de construir, pulsando antes dos cálculos, e se tornando um bolo de resultados falsificados, arquitetados para senão arrecadarem mais e mais pão, mais e mais tempo hábil, mais e mais documentos, mais e mais enganações.

Ouvi dizer que o que houve ali foi um corte de gastos. Foi necessário muito café para poucas noites, e tanto dinheiro para comprar o sono teve de ser descontado, infelizmente, do material das asas. Cera de vela; é isso que se usa hoje em dia.

Metal é caro.

Aqui, logo ao nosso redor, e, talvez, incluindo até nós mesmos, um castelo. Não são laboratórios, são castelos. Cinzentos, imponentes, repletos de masmorras, túneis, fossos, torres cheias de arqueiros e com feiticeiros pelos subterrâneos, como fossem formigas, desvendando a tessitura da realidade; sábios, onipotentes, quase deuses.

Alguns, em verdade, acreditam ser inclusive maiores que os deuses de nosso tempo.

É engraçado notar que nem mesmo tão poderosos construtores de tamanha arca feudal notaram que a pedra afunda ao ser colocada sobre a areia – ou até notaram, não duvido também. Duvido de muita coisa, mas não da potência cerebral dos sábios. O que acontece é que tudo ficou tão grande quanto se queria que ficasse, e não como o senso das próprias teorias adotadas mostrava que seria possível. Nenhum cálculo é necessário para se perceber que a areia voa com o vento, e que construir tamanhas edificações à beira do mar é uma simples mostra de fascínio pelo preenchimento dos espaços vazios não com alguma técnica, não com alguma álgebra, sequer com alguma ciência ou matemática, mas com tão somente imposição de algo que parece bastante concreto por um intervalo curto de tempo.

E os arqueiros, antes que me perguntem, atiram flechas tortas. Vez ou outra acabam por acertar o alvo em cheio, bem ao meio do peito… Mas não gostam de acreditar que foi por sorte. Não existe sorte no mundo do castelo sobre a areia, meus caros. Não existe.

Há também quem esteja se questionando sobre os feiticeiros, e tudo o que posso dizer é que as novas armas de guerra são simulacros do que se conhece fora do castelo como talheres de mesa… E nada mais. Reinventar algo que já existe do lado de fora desperta prazer, impõe medo com novas palavras, mesmo sendo de conhecidos significados por todos. Existe o medo de pensar que pode não ser nada, existe a necessidade de se forçar acreditar sobre pouco ser tudo. Um garfo e uma faca, por exemplo, podem ser usados para se degustar um belo queijo mal-cheiroso francês, mas, ao invés de tão sensato uso, o que os feiticeiros fazem é tentar convencer os generais de guerra sobre como melhorar os armamentos do exército do mundo baseado em algo que é perfeito para se comer queijo fora do castelo.

D’outro lado desse maravilhoso parque que se estende até a floresta, existe também o prédio dos contadores de mentira. Não são, exatamente, desonestos. É, afinal, o trabalho deles: construir mentiras cada vez mais sólidas que possam servir como índice léxico, de maneira bem abstrata, para escrever desde o porquê das coisas caírem até idéias novas sobre como fazer as coisas não caírem mais.

Não se assustem ao tropeçar no vazio. Pode ser apenas um experimento sendo tocado, tal qual música, em um compasso completamente diferente. Um bêbado é apenas um bêbado, caído nas árvores depois de uma noite cheia de festividades antes de uma prova importante. Um bêbado que vive n’outro compasso, mas na nossa mesma realidade, porém, é um espetáculo. Um fantasma. E é fascinante toda vez que se tropeça num acidente da estrutura da existência.

Eu não sou um fantasma.

E depois, ali nas estátuas retorcidas, há também quem saiba muito mais que todos nós outros sobre como deve ser construída uma sala, como deve ser um quarto, e como um banheiro não tem importância alguma para uma casa. A última das preocupações num lugar feito para humanos é sobre como o humano haverá de aproveitar. Temos, todos, imaginação suficiente para viver sem banheiros, não é mesmo?

 

Claro que não. Mas eles não sabem. Eles sabem, dentre outras coisas, que não é muito viável construir salas sobre a areia, mas não sabem sobre banheiros. Notem que todos nós, de todos os edifícios, temos muito medo de contar esses espaços uns aos outros. Tornaria tudo mais fácil, mas quem ouve não fala, e quem fala não quer ouvir. Permaneçamos sem banheiros e sem queijo, por fim. Ou com banheiros, mas proibidos de usar talheres para comer queijo. Ou obrigados a comer queijo num banheiro, ou querer comer tudo e não poder ter um banheiro depois, tanto faz.

Não quero falar de todos eles, mas há os curandeiros. Magnificência; viajei desde tão longe, e por tanto tempo, para chegar e me deparar com isso. É um ofício dos mais dignos – tão digno quanto construir máquinas voadoras a partir do nada, tão digno quanto montar uma sinfonia desde o silêncio, tão digno quanto escrever o conjunto das letras que compõem o alfabeto de todas as civilizações, tão digno quanto pegar a gramática deste alfabeto e subvertê-la para fazer as coisas pararem de cair, tão digno quanto desprezar banheiros.

É o ofício de entrar por dentro de outro, mesmo que não se use as mãos; abraçar um câncer, e arrancá-lo, impiedosamente, trazendo o cálice – grosseiro – da cura para alguém angustiado, e derramar no apocalipse do milagre.

É um ofício digno, mas, como podemos ver segundo a figura CXXXVI/L, tem se tornado tão ineficiente quanto os aviões de cera, quanto o castelo sobre a areia, os talheres de guerra… Não se pode, e que isso fique bem claro, curar uma pessoa quando está, o curandeiro, doente da própria identidade. Não digo sobre bactérias, nem sobre algum vírus robótico. Digo apenas de não querer. Quando não se quer curar alguém, não existe técnica que permita a cura. Assim também acontece com a música: quando não se quer ouvir a própria voz, saber a História das composições pouco sentido há de fazer.

Quando não se quer compreender o mundo, do jeito que nós, inclusive eu que pareço tão diferente, observamos – e não do jeito último que todo e qualquer ser haverá de concordar -, também pouco importa quanta matemática rebuscada seja empregada. Pouco importa quanto pão haverá de trazer as noites de insônia, pouco importam os aluguéis, e os livros, e as teorias consolidadas. Pouco importa tudo.

Descrever a realidade é como interpretar uma música complexa já feita há tempos. Quando se tem vergonha de cantarolar para si próprio, a realidade morre e, ao contrário deste que vos fala, uma idéia sufocada, depois de completamente enterrada no cemitério do conforto, não volta.

Idéias sufocadas não dão aulas.

- R. P. Foldbridge, 2114

Edge

Saudações, caros viajantes! Outra vez um atraso um tanto relevante desde nossa última comunicação, não? Bom, aqui está tudo muito úmido e, a cada dia, descubro novas galerias escondidas e símbolos e linguagens e mensagens e ciências!

De qualquer forma, consegui receber apenas algumas das mensagens que nobres criaturas tentaram enviar-me. É uma pena, no entanto, que o rapaz que se identificou como “chronic mood disorder that falls within the depression spectrum”, tenha errado. Os magos e tolos serão melhor abordados numa próxima comunicação (esses papesóides Voynich-like são realmente estranhos de se interpretar ou traduzir ou qualquer coisa do tipo).

Por hora, meus caros, deixarei um texto mal-traduzido que diz sobre as bordas ásperas, sobre raladores de queijo, muros psicodramáticos e peças teatrais envolvendo velhos conhecidos.

A Borda

Recheada, normal, vazia, tanto faz. Havia algo naquela noite que ainda me incomodava depois de tantos meses. Eu sabia exatamente o que era, mas não queria falar. Pra ninguém. Ninguém mesmo. Nenhum tipo de ser precisava saber daquilo, eu não precisava saber daquilo… Mas eu insistia em lembrar que sabia.

Não gosto, na verdade detesto amaldiçoar coisas, fatos, pessoas; mas é a única palavra que consegue definir razoavelmente o que sinto por tal memória: maldita (devo ressaltar que realmente não gosto dessa palavra…).

Vem, toda vez vem. E não some. Sempre volta. E eu não consigo falar pra ninguém. É angustiante. A imagem perfeita, apesar de todas as distorções, dentro de mim. Uma imagem de quando estive completamente fora. E assisti tudo.

Era como o pior pesadelo que pudesse haver. Mas não era um pesadelo. Era tudo verdade e estava exatamente à minha frente. Eu podia tocar, cheirar e ouvir.

Creio que fiquei tão chocado que não pude esboçar reações físicas convincentes. Eu queria levantar, dar uma ultima olhada, deixar que tudo o que houvesse dentro de mim fosse vomitado pelos meus olhos, como se toda a minha mente tivesse bebido demais a pior bebida que pode haver no mundo, qualquer misto de cachaça barata, veneno, insetos e restos… Talvez seja esse o gosto real do pesadelo, algo muito longe das visões romantizadas onde era um delicioso cálice amargo.

Talvez seja assim enquanto pesadelo.

Mas eu não podia. Aliás, podia. Mas eu definitivamente não podia. Mesmo podendo.

É estranho pensar com clareza quando a cabeça não funciona corretamente. Digo isso porque textos como esse, escritos à parede, só conseguem sair sob condições extremas, tanto física quanto psicologicamente. Extremo. Extremo. Extremo.

Há um preço a se pagar por tudo. Um dos preços cruéis que a realidade cobra é a de querer se sustentar sobre os próprios pés, fingir um equilíbrio, mesmo quando não se consegue enxergar o próprio palmo à frente de tanta embriaguez. E embriaguez, reforço, por bebidas ruins, baratas, podres.

É provável que algum pensador antigo conseguisse descrever melhor isso tudo, sinto falta de Aristóteles ou Homero (se é que ele existiu) ou qualquer outro que se vê nos livros medíocres. Tantas visões refutadas cientificamente, sob métodos minunciosamente planejados… Protesto. Não acredito em métodos minunciosamente planejados. O mundo é como o mundo pode ser. Não como sempre foi nem como sempre será.

Olhar pro céu é uma experiência fantástica.

Não vomitei quando deveria, mas escrever em paredes (mesmo que com pedaços de ferro que despertam aflição em pessoas mais sensatas) é um bom modo de se fazer isso. Espantar os demônios que habitam a cela, não deixá-los dormir. É o que eles deveriam fazer com você, afinal, mas os papéis se invertem e tudo o que eles almejam é voltar para o inferno e ter um sono tranqüilo.

Isso é bom, se for analisado. Tanto querem invadir a realidade que não suportam e voltam ao inferno. Vomitar é uma maneira de se manter no que é convencionado como “real”. É afastar maus fluidos, é ser mais vivo.

Não devemos ficar orgulhosos de como somos pequenos, mas sim por termos alguma coisa que nos faça ter consciência de que o somos. Contemplar a irrelevância é difícil.

Espero que os riscos nessas paredes fiquem suficientemente fundos; não sei quando mais alguém achará esse lugar, essa cela em que eu mesmo me tranquei e joguei fora a chave sem comida nem bebida.

Por aqui, se alguém de algum lugar está lendo, passou um ser que contemplou um pesadelo nunca imaginado tornando-se realidade, e realizou o caminho inverso das coisas: normalmente alguém tem um pesadelo antes. No entanto, eu tive depois. Várias e várias noites, até mesmo antes de dormir.

Espero, do fundo do que me resta a ser chamado de “sentimento”, que nenhum, nenhum de vocês passe por isso.

Não é bom.

Mas, se acontecer, não se deixe cegar. Aquilo que faz olhar para o céu todas as noites e esboçar uma sensação confortável não pode ser apagado por uma overdose de veneno. A diferença é o tamanho da dose, não?

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- Assinado como “D. Psi, o que mora na tempestade”.

Bom, à parte disso, mais algumas notas que esqueci de ressaltar: estou em busca de uma bússola para orientação; não uma grande e profissional, quero uma bússola pequena, barata e que possa ser guardada numa caixa pequena. Não é para mim, mas… Convenhamos que seja meio difícil achar uma loja aberta numa cidade que simplesmente não existe para o mundo.

Se algum de vocês, nobres almas, souberem como consigo uma, por favor, avisem; é parte importante de um novo sistema que estou a montar com válvulas de cobalto e tecnécio manufaturado a partir de ervilhas em conserva.

Também estou trabalhando (não tão arduamente, confesso com vergonha em meus olhos) na produção de um algoritmo mais eficiente para comunicação interoceanotemporal a partir dessas coisas cinzas.

Por hora, preciso ir, está um pouco tarde e estou ficando com fome. Preciso cavar mais um pouco de concreto e, quem sabe, achar latas de conserva com prazo de validade vencido há somente trinta décadas.

Até a vista!

Maria Sanguinolenta

Saudações!

Sei que é um tempo desde a última transmissão, my fellow readers… Mas é por um bom motivo: tenho presenciado experiências fantásticas. Maioria delas tem sido agradáveis ao extremo. Algumas um tanto frustrantes, mas sempre servem para ensinar algo… Mesmo que esse algo só apareça depois de um longo hiato subversivo das revistas e jornais e boletins rodoviários extraordinários.

A cena que preciso retratar por hora é cinza e vermelha: havia portas, talvez, há muito tempo, o cheiro é de cimento e resíduo nuclear e vômito após uma longa sessão subversiva de sexo oral.

Ela era a garota que sempre sonhei. Não exatamente a que sempre sonhei, pois nunca a imaginei de tal forma. Nem a conhecia, na verdade. Ela apareceu no meu quarto. Antes do meu quarto, no meu portão; antes do portão, na minha rua, cidade, país, continente, et coetera. E ela queria uma dose de bloody mary. Sabendo fazer, chamei-a para tomar em casa.

Na verdade eu queria embebedá-la com molho inglês.

Para minha surpresa, ela veio! E não veio sozinha, de fato. Só não sei quem a acompanhou. Em casa ela entrou sozinha, vi o vulto na carruagem indo embora.

Sempre gostei dessas novas tecnologias – eletricidade, que tanta gente comenta; eletrônica, qualquer maluquice assim – e tenho muito orgulho de minha coleção de placas. São tantas placas… Variadas cores, formas, tamanhos, cheiros, texturas… Lindas plaquinhas milagrosas cheias de elétrons e neutrinos dançando com a Lua e com os diodos do destino e com o milkshake eletroeletrônico organicamente organizado segundo as rimas poéticas alexandrinas (ou algumas outras derivações também)… Tudo muito mágico e saboroso. Ah, o gosto dos neutrinos…

Mas no momento da preparação da dose, pensei em algo mais concreto e vermelho: o tomate. Sementes, quem se importa com sementes de tomate… Há quem tenha algum tipo de desejo estranho envolvendo sementes de tomate, segundo o que M.O.$>E.$ chegou a contar certa vez na chuva. Estávamos por demais bêbados. Não lembro ao certo da história. Mas tinha sementes de tomate.

A cena tão horrífica, mórbida e singela do tomate sendo triturado. O tomate que vira suco. O suco de tomate. Da lâmina de aço cirúrgico infinito ao copo. Tinha vodka, mas o momento pedia algo mais violento, algo que combinasse com sangue. Joguei algum licor vermelho. E depois vodka também, se me compreende. Ela não pode faltar jamais. E aí algumas folhas, molho inglês (o tão esperado molho inglês), e algo mais.

Fui surpreendido, então. Ela chegou-se como a preguiça ao meu pescoço. Subiu os dentes até a costa de meus ouvidos, murmurando, arfando, soltando pequenas risadas inocentes de prazer; eis que passou a mão pela minha cintura, alcançou o balcão, sempre tão determinada. Abriu uma das gavetas e pegou um velho cutelo. Era de meu avô esse cutelo… Quantos animais já se passaram por essas lâminas. Quantos hormônios e quantos glóbulos. Glóbulos: era isso que ela queria.

“Licores vermelhos” – disse, e continuou – “doces como o ferro que sustenta tantas casas e tantas torres” – e conforme sussurrava tais romantismos, passava lentamente a lâmina afiada e enferrujada do cutelo pelo próprio pulso. Começava a sangrar e deixar o sangue cair dentro do copo… Era uma cena tão açucarada…

Fomos tomados pela embriaguez antes da bebida ficar pronta. Peguei o cutelo de suas mãos e comecei a fatiá-la toda. Mas não violentamente – com ternura. Ela ria e gargalhava de tanta excitação, tremia quando eu afastava aquela lâmina já avermelhada… E a dose em cima da mesa: num momento, de repente, resolvemos parar um pouco o ato sexual e tomar a Maria Sanguinolenta.

Ajoelhamo-nos no chão e tomamos cada gole como se fosse o último, aproveitando cada nuance. Pensei que o molho inglês daria um gosto especial, mas o gosto das hemácias foi fenomenal. Nunca tinha provado hemácias tão saborosas. Parece que hemácias foram feitas apenas para combinarem com o gosto tão ímpar do tomate e do molho inglês e da pimenta.

Eis que ela levantou, já com as roupas todas estraçalhadas (quem é que pensa em tirar a roupa convencionalmente quando se tem um cutelo afrodisíaco em mãos…) e correu para o quarto. Assustei-me por um momento, mas já estava eu meio zonzo devido ao álcool e aos eritrócitos… Apenas fui me arrastando até lá. Eu não tinha cortes pelo corpo.

E lá me deparei com uma das cenas mais eróticas que jamais passara sequer nos sonhos mais despudorados de minha mente tarada. Lá estava ela, esfregando-se contra o chão, com alguns circuitos em mãos, alguns fios enrolados pelo pescoço e coxas. Minha nobre coleção de placas, tão organizadas, agora no caos da excitação suprema.

Ela pegava as placas mais ásperas, com mais terminações, e lambia, roçava contra a virilha, mordia, usava inclusive como se fossem artifícios de satisfação carnal. As mais ásperas e pontiagudas. Parece que ela gostava mesmo de bebidas sanguinolentas.

Eu também gosto, como já se sabe. Por isso não pude manter-me como observador. Abri o armário e peguei mais placas. Joguei-as todas em cima dela. Placas velhas, podres, cheias de formigas e ovos e teias e terra e ferrugem e seja lá qual mais elemento velho possa existir nas tabelas. Cada placa que jogava, mais ela se retorcia… Posso ver o quanto ela se divertiu analisando as manchas de sangue pelo quarto todo: cama, escrivaninha, armário, ralos, lixos, livros, parafernalhas, rádios, janelas. Tinha muito sangue.

Voltei à cozinha, enquanto ela continuava tal insólita masturbação. Só para pegar mais uma dose… No caminho, no entanto, deparei-me com o radiador. Não estava frio… Eu poderia comprar outro depois… Chutei-o até desprender da parede e levei-o ao quarto para minha amada Maria Sanguinolenta.

Claro que de início ela estranhou, afinal uma pancada na cabeça pode parecer muito rude. Mas depois gostou, como previ. E continuou seu alfa de sangue e cobre…

Depois disso, meu caro, não me lembro de mais nada. Tomei mais três ou quatro doses de todo tipo de bebida que encontrei no quarto… N’outro dia acordei com uma carta dela ao meu lado, com juras e juras de amor eterno.

Foi uma tarde inesquecível.

- SM2; Prypiat, 2305 1002

Sobre detalhes técnicos, o comunicador está com um chiado horrível, e não consigo entender de onde vem. Se algum dos que estiverem lendo estiverem tentando passar uma mensagem, por favor, troquem a freqüência. Nessas microfreqüências de césio toda a programação pode ser desfigurada. Já não é lá tão simples achar um pouco de césio saudável por essas bandas… Preciso usar muito bem esse pouco.

Estou, e isso é bom relatar, para sair definitivamente desse casebre… Achei outra construção abandonada, com mais recursos, mais poeira e mais concreto. Igualmente cinza, e fica praticamente ao lado. Já era hora de sair daqui e testar uma nova disposição de comunicadores para um melhor relato…

A cidade ainda é cinza, não se enganem com tanto vermelho. A cidade é cinza. E a rodoviária ainda existe, assim como todo o resto. Em breve, aliás, volto a catalogar certos documentos que achei. A bateria está com problema e o cabo de energia foi devorado por um gato. Não aqui, claro; aqui não existem gatos. Mas antigamente eu usava uma gambiarra, e esta não está surtindo mais efeito. O cabo de energia está com problemas, se alguém souber como consigo um novo, ou melhor, se alguém puder mandar um novo por avião e jogá-lo lá de cima… Que seja, estou sonhando demais com esse cabo de força. Esqueçam.

Até a vista, my fellow readers!

Grato.

1836-

Um elétron, um ponto. Por convenção, carga negativa.
Uma mosca pré-histórica presa num tanto de âmbar, cravada numa árvore qualquer derrubada logo depois e triturada.

A pré-história vira serragem.
A serragem é misturada num tonel de cachaça ruim.
Um cidadão fica bêbado com a cachaça.

Vomita.
Desmaia.
Vomita.
Desmaia.

Acorda, e lá está a ressaca, olhando para ele na forma de água de um sanitário. Suja com o vômito.

Então o cidadão sente a curiosidade, vai rastejando até a cozinha, pega uma taça (dessas em que se costuma colocar champanhe), volta ao sanitário, enche a taça com a água vomitada, olha contra a luz do Sol que bate pela janela.

Toma um gole, pois. O gosto é excêntrico, o gosto é daquilo que ele expulsou, daquilo que não servia.

E toma mais um gole. Poderia muito bem ser como o uísque; no começo, ruim, mas depois que se aprende a beber, talvez…

A taça já estava pela metade, e a curiosidade do cidadão não era saciada. A cada novo gole de vômito diluído, mais vontade de continuar bebendo. E ele bebia, e os minutos passavam e ele nem percebia.

Um leve gosto de âmbar no fundo, mas o cidadão desconhecia esse termo. Creio eu.

Três, talvez três e meia da tarde, com a barriga cheia de vômito novamente engolido. Carne, carne seria bom para acompanhar o gosto do vômito. Foi, então, até a cozinha o cidadão, queria carne, estava com fome.

À esquerda da pia, o moedor, o velho moedor enferrujado de carne. O cheiro e a sensação de História enquanto acariciava o moedor, sentindo cada rugosidade, cada falha no metal, cada arranhão. Sua avó talvez tivesse usado o moedor para preparar alguma refeição num dos domingos. O velho retrato olhava piedoso.

O cidadão, por sua vez, tinha uma geladeira vazia, antiga, poluidora, sem sentido de existir. Mas queria comer carne, e a única carne presente no recinto era a dele. Não havendo, assim, outra saída, colocou a mão pelo moedor, girou lentamente a helicoidal. No começo doía um pouco, chegava a perturbar, então Ele pegou um copo maior e bebeu mais um pouco de vômito (havia algum álcool, serviria de alguma coisa); já um pouco zonzo (não se sabe se pelo gosto ou pelo efeito), girou com certa força aquela helicoidal. Viu um pouco de líquido vermelho saindo pela parte anterior do moedor, então continuou. Ainda não era carne.

Aos poucos a carne foi saindo, com uns ossos pelo meio (que ele não reclamaria, aliás. Era melhor do que nada), uns nervos, muito sangue… Para ele já bastava, quando percebeu que toda a sua mão fora moída por ele mesmo.

Colocou a carne numa frigideira, já untada com o devido óleo de linhaça, e a fez bem passada, quase tostada, não gostava muito de carne crua, principalmente a sua. Embora nunca tivesse de fato provado. Jogou sal, muito sal. Havia óleo, muito óleo.

O retrato da avó ainda piedoso olhava para os atos. Tal moedor tão útil, comprado naquele armazém próximo à Lapelle’s… Fazia tempo, mas lá estava tudo como estava.

A carne queimou um pouco, estava pronta. Nem fez questão de pegar pratos, cortou-a ali mesmo e começou a comer. Também já fora parte dele um dia, que mal podia fazer. Vômito e carne de sua mão. Um banquete naquele sábado à tarde.

As pessoas que viviam dentro da parede também observavam atentas, assim como o retrato da avó. Um cheiro insuportável naquele apartamento. Ralos saindo das paredes, baratas, carpetes imundos e uma mala aberta sem nada na sala. Era aquele o modo de vida, e nada podia ninguém fazer. A vida era só do cidadão.

Você tem medo do escuro, cidadão?

Estômago [II]

Ele não precisava ali dos escravos. Ele, por Si mesmo, registrava nas pedras todo o relógio e todos os mapas e todos os novos caminhos, que sozinho tratara de trilhar.

Na última das salas, lá ele recobria as paredes, e tudo abençoava. Sala que talvez apenas ele fosse marcar com seus pedaços, num extenso extremo de tempo; sala que talvez sucumbisse à ira das tempestades, mesmo antes de ser novamente aberta por outro alguém; lá ele vomitava as entranhas eletrônicas, lá ele traduzia os pulsos, tanto os de sangue quanto os de eletromagnetismo.

Um dia, pensava, tudo passaria. As glórias, o legado, os monumentos, e até mesmo a memória, que insistia em tentar capturar nas paredes. Tudo passaria. Todas as vidas.

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