Um Boleto de Outra Pessoa – Especial Dia das Bruxas 2018

O presente registro é baseado numa história real. O caso aconteceu entre os anos de 2017 e 2018, na cidade de São Carlos, interior do estado de São Paulo. Os nomes foram alterados para preservar a identidade dos envolvidos.

Joaquim Mendes, ou Seu Joaquim, para os amigos, era um homem feito. Tinha boa índole, bom emprego e boa família. Das oito às seis, era técnico de um laboratório didático numa faculdade pública de grande renome. Conhecia o que há de mais avançado em eletrônica, fotônica e sensores de toda sorte. Ajustava seus aparatos para gregos e troianos. Ajudava com a preparação dos experimentos, consertava aparelhos, redigia relatórios, prestava contas ao chefe e aos professores com os quais trabalhava. Dias e tardes voavam pelo calendário didático. Joaquim, qual relojoeiro minucioso, continuava a ajustar. Francos sejamos, ninguém tinha ressalvas quanto ao Seu Joaquim. Lá ele esteve nos últimos 30 anos, e lá estaria até o fim da sua vida. Joaquim não devia nada a ninguém. Já o mundo… Talvez o mundo ainda lhe esteja em razoável débito.

Quando o Sol se punha por trás das montanhas da papelada, ao longo dos crepúsculos dos ofícios e das madrugadas dos currículos eletrônicos, fins de semana e feriados do secretariado, Joaquim não era mais dos acadêmicos. Era da esposa e do filho Pedro, de cinco anos. Sua esposa, Vera, era florista. Mas florista das boas! Traga uma flor para ela, e ela dirá de onde é, qual é sua graça e como cresce aquela obra divina. Vera – ou Verinha –  trazia as flores do mundo em seus olhos, o conhecimento das dores em mãos delicadas ao mesmo tempo em que calejadas por tantos espinhos das rosas mais belas. Mas o maior de seus perfumes era o marido Joaquim, que nunca saíra de seu lado em todas essas bodas. Como quando amamos alguém pela simples memória do cheiro que nos aflige numa semana solitária, Verinha amava Joaquim e o perfume das suas idas e vindas.

Aos domingos, Joaquim dava um tempo em Vera. Momentaneamente se desligava e entrava num transe radiodifundido, para uma paixão quase tão intensa quanto sua família e seu laboratório: a Sociedade Esportiva Palmeiras. O famoso Verdão. O antigo Palestra Itália da Rua Turiassú, do Parque Antárctica e da Academia de Futebol. Palestrino de sangue verde, ele colecionava camisas, notícias, botões, adesivos e fotografias das grandes esquadras alviverdes. Seu maior ídolo de todos sempre foi o Marcos. “Melhor goleiro que já vestiu a camisa do Brasil”, ele bradava nos seus melhores momentos. Mas atualmente ele via alguma qualidade no time dos garotos. O Dudu era chato, mas jogava um bolão. O Felipe Melo, um craque meio tresloucado: melhor jogando do que falando. O Bigode, uma esperança para qualquer virada. O goleiro não era lá essas coisas… Marcos só teve um, pra nunca mais.

Joaquim preferia perder tudo do que perder um clássico. Fizesse Sol, Chuva, Neve ou Tempestade. Fosse transmitido em TV, Rádio ou Sinal de Fumaça. Lá estaria ele, e isso era algo que jamais haveria de mudar.

…Mas foi justamente durante um Choque Rei que tudo mudou.

Domingo. Quatro para cinco da tarde no horário de Brasília. Dia insosso no céu, dia tenso no gramado. Todos os olhos do Brasil olhavam para o mesmo estádio de futebol. Intervalo do jogo na Arena. O São Paulo ganhava por dois a zero em pleno estádio do Palmeiras. Joaquim, naquela semana, havia discutido com o professor Francisco. Mas discutiu feio, a ponto de envolver o diretor do instituto, entrar com papelada, coisa feia mesmo. Seu filho estava doente, uma dessas sinusites que parecem vir na pior das horas. Sua esposa, apática, irritada. Política, então, nem se fala: um escândalo atrás de outro. Tudo na vida parecia estar escapando das suas mãos. Joaquim não estava pra conversa, e mesmo assim o interfone tocou. Era o síndico.

A vida de algumas pessoas pode ser vista como um mar aberto, calmo e sem destino. Sem costa, sem peixe, sem vento. Um horizonte pálido e retilíneo que não encontra terra. A de outras é um rio violento, cheio de pedras que levam a desfiladeiros d’Água que não trazem um fundo senão a própria morte que aguarda o cadáver se convencer de que não é mais que pedaço de carne. A tormenta ri, a pessoa ri de volta, e quando percebe estão os três rindo juntos. Quanto ao Joaquim, ele preferia ver a vida como a praia numa tarde ensolarada de férias, rodeado de amigos, camarões fritos e uma boa cerveja, com um pingo de limão e um punhadinho de sal. Mas ali, naquele domingo, a praia que era a vida de Joaquim conheceu a ressaca, a insolação e a diarreia. O camarão causou alergia. A cerveja estava choca e quente. Os amigos estavam em Ubatuba, e Joaquim em Peruíbe.

Era o síndico e ele não ligou por engano. Na verdade, quem devia estar enganado era Joaquim, pois aquilo não era de se fazer. “Mais de quinze boletos”, disse o síndico, “quinze boletos!” Quinze boletos entupiam a caixa postal do apartamento 27, que era o de Joaquim, e nem mais um cartão de feliz aniversário podia passar ali. O que Joaquim estava fazendo com a própria vida? “Onde já se viu alguém deixar esse lixo vencido às vistas de tantos moradores que não tem nada com isso?” E ele não pensava em fazer nada a respeito, “não é mesmo? Porque pagar as contas, que é bom, ninguém quer pagar! Esse é o Brasil!”, berrava o síndico, “esse é o Brasil!” E que Joaquim “descesse e pegasse todos aqueles boletos, que ele não ia pagar mesmo, mas que pelo menos tirasse da caixa.” E era isso. O síndico não ia falar de novo. A mamata de Joaquim tinha de acabar, seja por bem, seja por mal.

Enquanto o Cléber Machado falava os resultados da rodada, no mesmo tom animado e monótono de todos os domingos, Joaquim descia as escadas, tentando respirar lentamente, mas já sentindo as veias pulando em seu pescoço. “Boletos? Que diabo de boletos?”

Ao verificar sua caixa de correspondências, muitos envelopes. Todos com códigos de barras e carimbos de urgência. Todos no mesmo nome: Joaquim Mendes da Conceição.  Todos no mesmo endereço: Rua Paulo Freire, 729, Apartamento 13. São Carlos, SP. Curiosamente, nenhum dos remetentes lhe era familiar. Não eram nomes de lojas; talvez fosse alguma organização que cuidasse da parte financeira das lojas. Mas o que ele tinha comprado? Não conseguia se lembrar com clareza. Será que era alguma coisa do Vanderlei? Será que era do Instituto? Ou será que a Vera comprou alguma coisa para o Pedro? Tinha sido aniversario dele… Ah, teve a escrivaninha… mas ela já não tinha sido quitada?

Com raiva e envergonhado de tanta confusão, Joaquim pegou os boletos, enfiou no saco e subiu. Sentiu que as frestas das janelas olhavam, de canto de olho. O vidro fosco o seguia com olhos de cristal e malhete empunhado. Os vizinhos cochichavam. Ele subiu, meio bêbado da cerveja que era sagrada nos domingos para relaxar; com o bafo do amendoim tostado; com o chinelo surrado e confortável do verão; com o suor do nervosismo; com a garganta entalada de tanta vergonha. Ele subiu, sozinho, e entrou.

“Vera”, ele chamou. “Vera… Vera, caralho!”, Ele gritou. Mas Vera não ouvia. Vera não podia ouvir. Vera estava dormindo, sorrindo, abraçada com o travesseiro. Ele a cutucou, ela acordou e lentamente dissolveu o riso ao vê-lo. “Vera”, ele seguiu, tentando manter a cama, “querida… Você sabe de algum boleto que está pra vencer?” Ela não entendia. “Boleto, Vera, chegaram quinze boletos que já venceram, todos no meu nome, e olha esses valores… Seiscentos pra Fundação SCP, quatrocentos e cinquenta e dois pra Ali S/A… você sabe?” “Não, Joaquim”, ela respondeu bocejando, e ele que “tratasse de pagar as próprias contas antes de fazer insinuações”.

“Ora essa…”, murmurou Joaquim em desespero e angústia.

Vera acordou, mal humorada, ao perceber que o marido era aquilo que ali se encontrava, e nada mais. Foi banhar-se para acordar de vez e tirar da pele os restos dos seus sonhos doces. Enquanto a água quente calejava o rosto de Vera, o de Joaquim era suor frio e lágrima morna, mais salgada que o sal da cerveja da praia. Mas Joaquim não chorava de triste. Ele chorava porque não conseguia compreender.

“Vanderlei, sou eu”, ele disse ao telefone. “Eu sei, é domingo, mas, veja, será que não é algo lá do laboratório? Tivemos que comprar os cabos coaxiais essa semana… Cosmo Visão não é de seu conhecimento? Tem certeza? Desculpa seu Vanderlei, não, não… Novamente, desculpe incomodar o jantar, eu não… Sim, não. De forma alguma. Boa noite.”

Dormiu, de bêbado. Sem ver o Mesa Redonda.

Na manhã seguinte, acordou um minuto antes do despertador. Esperou Vera acordar e passou um café. Vera não se sentia bem. Era dor, um inchaço, preocupação com o pequeno Pedro… Ela tentava mas não conseguia abraçar o marido. Ele dizia estar triste, ela lamentava, mas seria melhor ele partir logo pro trabalho. Trabalhar ajuda a esquecer. Quando se tem circuitos para soldar, não há espaço pra lamúria. Muito melhor girar, e girar, e girar o dial do multímetro para não perceber que eram seus próprios delírios que giravam, e giravam, e giravam…

Mas havia algo na porta da casa: um saco pardo. Que era isso? “Que cheiro horrível! Que filhos da puta!” Era um saco de merda! “…E merda de gente!” E estava escrito CALOTEIRO em letras garrafais! “Quem porra? O que caralho?” O que era aquilo? Joaquim começou a gritar, às cinco e vinte da manhã, em pleno corredor do condomínio. Quem tinha sido o marginal? Quem tinha sido o escroto? O moleque? Os olhos de vidro não respondiam, mas olhavam. Cochichavam. Malhetes em riste. Joaquim gritava até o limite de sua garganta, mas ninguém respondia. Não tinha sido ninguém. Ele que pagasse as próprias contas.

Na faculdade, o de sempre. Céu azul sobre o hall de entrada, que era coberto. A secretária, tal qual arquétipo Jungiano, desejava bom dia mesmo que o visitante fosse um pedaço inerte de rocha. Joaquim, qual rocha inerte, nem isso pôde responder. Papel, relatório, transformador queimado porque o aluno enfiou no 220, Vanderlei ocupado, café aguado. Mas aquilo pagava o salário. Seu amigo fiel, Borges, estava lá, do lado, removendo uma solda. “Borjão”, chamou Joaquim, “e se a gente filar uma tilápia lá no Moura? No almoço, ué. Nada, só queria comer alguma coisa boa hoje, bater um papo. Beleza, saindo daqui a gente vai lá.”

A vida de um bom técnico de laboratório faz passar o dia tão rápido quanto ele consegue soldar um fio desconectado. Logo já era quase meio-dia, e foram ao boteco do Moura, ali mesmo na esquina. Futebol, Vera, Pedro, Paulinha, Vanderlei, um refri porque ainda era expediente. Tilápia assada, suculenta, um crime. E com um limãozinho que parecia ter sido colhido direto do jardim dos deuses. Perfeito. Borges ia pagar a conta.

“Pra que isso, Borges? Não, vamos rachar, a gente sempre rachou ué. Que situação, Borges? Você tá bêbado? Quem te falou essa bosta? Quem te falou isso? De onde você tirou isso? Cinquentinha? Borges, você sabe o quanto eu ganho naquela merda de laboratório? Vai te catar, seu bosta! Em uma semana eu ganho o que você não tira em um ano, imbecil! Você sabe o saco de quanta gente eu tive que lamber pra chegar aqui? Então enfia o cinquentinha no cu, seu bosta! Seu bosta! Seu bosta! SEU BOSTA!”

Joaquim largou furioso uma nota de cem na mesa, quebrou o copo arremessando-o ao chão recém varrido e saiu esbaforido. “Que bando de gente escrota, fofoqueira. Por que não cuidam de suas vidas infelizes?” E quem tinha sido o paspalho que tinha espalhado aquilo? Ele só havia falado com o Vanderlei. Tinha sido ele? Pra que isso? “Ora essa, cinquentinha… Cinquentinha é o pai do Borges, ora essa!”

Na rua, as pessoas nas calçadas e nos carros olhavam com os mesmos olhos de cristal das janelas do condomínio. Olhavam de vesgueio, de lado, depois pra baixo. “Coitado… Deve ter chegado na crise da meia idade, já não consegue responder aos próprios impulsos…” “Coitado, um homem tão bom…” “Coitado, tão inteligente que era, agora virou isso…” “Acho que tá envolvido com jogo.” “Acho que é outra. Deve ter pulado a cerca e agora a conta tá chegando.” “Acho que é coisa errada isso aí.” “Ele não tinha um esqueminha com o Inácio?” “Coitado do Joaquim…”

“COITADO É O CARALHO”, Joaquim gritou a uma transeunte qualquer, que se indignou ao mesmo tempo em que se assustou com tamanha hostilidade. Um outro entrou na frente: “pera lá, vê como fala.” Outra interviu: “com uma só você é todo macho não é?” O pivete cuspiu: “tio, toma seu rumo. Cachaceiro! Vai acabar sua mamata, viu?” Outro o agarrou pelo braço: “pede desculpa, e pede agora. Que culpa a gente tem que você não paga o que deve? Que você é um caloteiro de marca maior? Um enganador da pior espécie?”

Joaquim se debatia, e babava, e amassava a camisa xadrez de botões brancos. Chorava, agora sim de tristeza. Mas ainda de raiva. Ainda de confusão. Borges veio ao seu encontro, afastando a multidão e acudindo o pobre diabo. “Deixa disso, ele tá com problema. Não é da conta de vocês mesmo, ele tá doente. Ele já tá mais pra lá do que pra cá. Desculpa, não, deixa… isso, deixa que eu levo. Esquece. Desencana. Vamos, Joaquim. Que hoje você não tá em condições.”

“Que isso, Borges? Até você? Por que eu, Borges? Por que… Eu… Que é que eu sou?”

“Você ficou aí, agora vem com essa de ‘ai Borges’. Tá louco mesmo.” “Vera? Mas o que…? Que dia é hoje? Cadê minha camisa? Eu to em casa? Perdi o expediente!”

“Correspondência? Pra mim? Mas eu peguei ontem… segunda… Mais? O que ele disse agora? Deixa, eu desço.”

E lá estavam: mais cinco boletos no nome de Joaquim. Dois mil, quinhentos e sete reais, mais setenta e sete centavos. Vencidos ontem. E agora não dava pra pagar pelo aplicativo. Só indo no banco.

O Borges mudou de laboratório. Em seu lugar, agora havia uma escrivaninha vazia, com alguns retalhos de diodos. Pensando bem, a Sonia também faz tempo que não aparece. O Vanderlei deve tá viajando. O Walter, “não sei… não vi”. Era feriado? Por que os alunos estão tendo aula lá no bloco 2? “Oi! Silva! Oi!”

Mas Silva passou reto.

“Lourival! Lôre! Oi! Por favor, um minuto!”

Mas Lourival fez que não viu.

“Amigo, me dá uma mão aqui, eu–”

Mas o qualquer um passou como se passa pano num chão limpo.

“Sim! Você!”

“Sim, eu.”

“Viu, deixa perguntar—”

“Senhor Joaquim Mendes da Conceição, meu nome é Luiz Francisco Veiga, oficial de justiça. O senhor está intimado a comparecer à audiência de hoje à tarde. Aqui está o documento. Assine aqui. Eu lamento, acredite… Mas todos temos que pagar nossas contas.”

“…e assim foi nos últimos dias, meritíssimo. São setenta e nove boletos, mais de cinquenta mil reais, que eu não sei nem pra quem devo pagar. Sim, tem os códigos de barras, mas códigos não são pessoas! Se ao menos eu pudesse saber o que comprei… Eu juro! Eu juro por Deus! Eu não sei de onde vieram esses boletos! Doente? Eu não sou doente! Eu sou perfeitamente são! Eu não sei! Eu simplesmente não sei! Não há resposta!”

O malhete em riste que se levantava por trás das portas do condomínio finalmente descia até a madeira da mesa do executor.

“O que! Mas meritíssimo! Logo eu?! Eu não fiz nada! Eu nem sei o que são esses boletos!! E vocês aí, parem de comemorar! Parem de aplaudir! Isso tudo é uma ficção! Podia ser qualquer um de vocês! Anota aí, escrivã! Podia ser qualquer um que está lendo isso! Não aplaudam este circo! A justiça é um circo! Nada disso existe! Soltem! Soltem-me! Eu não sou criminoso! Eu sou inocente! Vera! Pedro! Seu pai é–“

“Uma merda. Já foi um mês. Eu como sozinho. Eu apanho. Vem o jornalista de esquerda. Vem o jornalista de direita. Vem Folha, vem Carta, vem a puta que me pariu. Eles me filmam, fotografam. Os textões são sobre mim. Eu sou símbolo de tudo que é ruim. Deu no jornal. No Datena, no Ratinho, na Fátima. Deu na televisão toda. Deu até no rádio. Eles filmaram minha prisão. Eles filmaram a Vera. O Borges, nunca mais. O Vanderlei riscou meu nome do artigo, arrancou a placa com minha foto sorrindo da porta do laboratório. Eu não sei como tá o Palmeiras. Ganhou? Não me deixam ver os jogos. Eu levo soco por olhar, eu levo soco por fechar o olho. Ontem o Jeison disse que Deus que me mandou pra cá, pra pagar em dor o que não posso pagar em grana. Ele também é um enviado de Deus. E me disse que eles serviam ao Senhor, ao único Senhor, e eu ia ser curado, nem que fosse embaixo de porrada. Crime pior não há do que mentir. E eu menti… Eu devia pagar minhas contas.”

“Faz um ano que não vejo Vera. Nem Pedro. Nem Borges. O Jeison conseguiu condicional, bom comportamento. O menino é evangélico, trabalhador, pai de família. Eu não sou nada disso. Ele Foi perdoado da chacina e de queimar mãe de santo. Eu nunca matei ninguém. Mas eu não paguei minhas contas. Então ainda tenho uns anos pela frente. Não tem apelação. Não tem juiz. Não tem porra nenhuma. O guarda me falou que até o presidente me usou de exemplo: as instituições funcionam, a lei é para todos, cadeia é lugar de bandido, polícia fica na rua, bandido fica na cadeia. Não tem nem saidinha. Não adianta parecer sério, profissional sério, pai de família. A conta chega, a justiça vem. Ordem e progresso. Eu devo ser lembrado como um sinal de que o bem venceu. Não há espaço para pilantras no Brasil de amanhã. Eu uni o país.”

“Como está Vera? Meu filho, Pedro… queria poder ver de novo o Pedro… eles ficam me falando que Pedro está morto. Que a sinusite piorou. Que Vera sofre. Que Borges foi expulso da cidade. Eles falam, eu não quero escutar. Eu não quero escutar. Eu não quero escutar. Eles falam.”

“Não da pra saber que horas são. Tá escuro aqui.”

“To com fome. Quero tilápia.”

“Eu não aguento mais. Pedro, me desculpe. Esse será o único erro meu. Eu sou inocente. Eu não devo nada a ninguém. Me desculpa, filho… Mas todos devemos pagar nossas contas.”

A ESPIRAL

28 de Outubro

Suicídio: a saída fácil. Encontrado o corpo de Joaquim Mendes da Conceição, no complexo do Jabuti. Enforcamento, constatou a perícia do Dr. Carlos Magno. Segundo outros presidiários, Joaquim Mendes se envergonhava de ter sido pego no maior caso de calote já visto na história do país. Sua esposa, Vera da Conceição, não quis falar com nossa equipe. A perícia agora investiga se o suicídio teve motivação política.

 

FAC-SÍMILE: O JORNAL DO SANCARLENSE

29 de Outubro

OPINIÃO, por MAURO GOLDENBACH CONGAMANHO. …E o que nossas universidades pensam em fazer a respeito? Pois está escancarado: o sujeito é bebum. É pilantra. É caloteiro. Gasta dinheiro público com jogo e bebida e deus me livre saber o que mais. Aí é pego. Nem esposa, nem filho, nem vizinhos aguentam olhar pra cara dele sem sentir vergonha. Também pudera! Sessenta e seis mil reais! Até eu ficaria com vergonha de respirar o mesmo ar. Mas aí aparece um grupelho de vagabundos, metidos a bruxos, e começam a venerar esse Joaquim. Fazem rituais, bebem sangue, juram por satanás que esse Joaquim era inocente e que ele vai ser vingado. E notem: tem desses aí que recebem até dinheiro pra ficar na faculdade! Dinheiro seu! Dinheiro meu! É vergonhoso, mas é bom. É bom que agora a gente sabe que pelo menos a justiça ainda funciona. O mesmo não digo das universidades. Não à doutrinação. Sim ao ensino neutro. Sim à meritocracia. Viva a nação brasileira!!

 

SÉFIRA – N. CXXXVII – “A” – Oct.18

A Ordem é testemunha do que houve com o acólito J.M.C e estamos atentos. A conta será paga. O sigilo foi carregado ontem na Op. In. Os não iniciados que lerem estas palavras, pagarão as contas. Os Escravos Servirão. Receberão em breve os boletos com as instruções. J.M.C mora dentro caixa. Angelus 33.

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PORTARIA 3504, 10/18. GABINETE DO PREFEITO.

Fica vetada qualquer cobertura sobre a Operação Segunda Via, ocorrida entre os anos de 2017 e 2018 nesta cidade. Infratores serão punidos com todo o rigor da Lei. Publique-se, divulgue-se e cumpra-se.

Assina: O Prefeito.

…E você, já checou suas correspondências hoje?

Ruína

Neste lugar em que um dia o céu foi azul, agora não há mais norte e nem sul. O cadáver do meu irmão não sangra mais. Ele, em meus pés, é um pedaço sem vida. Em minhas mãos, um restolho de sangue dele, que é o mesmo sangue que o meu. Coagulado, misturado com barro e dor. Nossos sangues, um fluido seco em que não se diferem os ferros da espada e os ferros do corpo.

Meus desenhos no círculo de pedra, minhas palavras, tudo se quebra. Muro e fronteira, cálice e pederneira. Frascos estilhaçados, templos suntuosos agora fazem parte de uma vegetação rasteira e decrépita, misturada com o crepúsculo do horizonte em que o Sol se esconde.

Escuro – a noite longa prossegue acima das luzes tímidas dos fogareiros da vila. Vento que sopra o cheiro de morte para ambos os lados do rio que nos divide ao meio. Um rio que é aberto como ferida, um abismo d’água, com ruínas do que um dia foram pontes, rabiscos do que um dia foram árvores, pequenos flagelos na terra seca daquilo que um dia foram passos das multidões, agora mortas.

Quem consegue descrever a morte que desceu em nossa terra, nesses nossos tempos? Vinda num repente que durou anos, o enxofre e a bile corrompida subiram pelas raízes da árvore do mundo, contaminaram até as folhas que ficam mais ao alto. Santos pecaram. Anjos se tornaram mortais. O trono do rei é ocupado por um espécime crescido na traição dos seus. Seu cajado é de agulhas contendo o veneno mais sórdido. Em seus pés o murmúrio dos inocentes que se prostraram para que fossem pisados. Seus olhos carregam a velhice de um povo jovem, que concentrou todos os sonhos num pesadelo sem final. Seu coração é protegido por sete camadas de fungos podres. Sua barriga traz o sinal de sua covardia mais vil, na forma de um rasgo mal cicatrizado feito por uma adaga construída por si próprio.

Eis que temos um rei, no alto na colina, e seus serviçais aqui embaixo. Alguns mortos, outros fingem estar vivos. Mas o cheiro da cólera, o odor pestilento da peste que vem pelo ar não deixa dúvida naqueles que ainda conservam o dom do discernimento. Alastrou-se até nós um tipo de doença cuja cura demorará épocas e gerações até que os mais sábios entre os sábios possam destilar. Estrelas girarão em torno dos nossos olhos, planetas comemorarão revoluções inteiras, chuva, suor e sangue descerão dos céus nessa madrugada. Um dia, no entanto, o crepúsculo será o último dos crepúsculos. O rei sombrio será destronado e suas cores reais serão reveladas sob a luz de um Sol que haverá de fulgurar. As poções das bruxas cheirarão a hortênsias e florestas virgens. Os sábios apontarão para uma nova estrela que surgirá no vazio do céu. O rio que nos divide será de água limpa e cheia de vida. As pontes serão reconstruídas. Irmão não mais carregará o cadáver do irmão assassinado por ele próprio.

Nossa terra mágica jamais se esquecerá das chagas que foram abertas nessa noite, nem de toda dor que separou o que era unido e corroeu o que era sólido. Até que o dia chegue, todavia, havemos de olhar para a noite densa além da neblina. Ouvir o rugir dos saqueadores sem confundi-los com leões. Afiar as espadas na pedra mais áspera. Decorar a posição dos céus. Guardar o livro do conhecimento e saber o gosto dos frutos de sua árvore. Pois nos esperam horas aflitas, presas dentro de areias numa ampulheta de angústia. Ainda nessas horas que virão, eu mesmo que me coloco no círculo e faço os símbolos no chão e no papiro vos digo: eu continuarei a escrever.

Sangue Primeiro

Noite alta nublada, lua escondida por trás do céu cinza. Bruxas e feiticeiros com seus caldeirões e suas adagas preparavam-se para o fim dos tempos. Eu era mais um, no círculo de pedra velha além do rio. Desenhava os símbolos no chão, que ali os símbolos se tornavam reais e andavam para além do espaço e além da distância. Serpentes e dorsais escamoteavam para além do piso de pedra antiga, trespassavam parede sem rachá-la, vazavam para baixo da terra sem abri-la. Retorciam as curvas, pretas e brancas, espaços vazios e preenchidos. Um dia adorável para a decadência humana. Uma cidadela que conhecera os pastos verdejantes e as folhagens amarelas, a doçura da fruta madura e o canto do pássaro livre, tomada por um longo inverno. Minha tristeza lamentava em vão. Era meu dever sacrificar o fanático. Não fossem meus rabiscos e minhas faíscas, ele continuaria a crescer, invadiria ainda minha casa, ameaçaria a todos nós que habitamos para além do rio. Invadiria a vida mais do que eu jamais poderia conter e controlar. Tomaria pelos braços a carcaça dos meus irmãos, das minhas irmãs, dos meus filhos e das minhas filhas. Adornaria seu pescoço com os bicos roubados dos passarinhos que nunca mais poderiam cantar. Azedaria a fruta, salgaria a terra, queimaria o pasto e comeria cada ser que vive. Tudo embrulhado como par de partículas emaranhadas dentro das minhas ideias e das minhas virtudes, querendo distância das sombras sem poder aceitar que a própria luz era a origem de toda penumbra.

E eu escrevia, atento a cada palavra, sem me exceder nos verbos nem nas vontades. Pois a mentira convence o tolo, mas não convence o Rei. Ordens do grafite para o além-mar, que atingisse o outro de mim, meu distante irmão, corrompido, longínquo. Aquele que chorou a lágrima que agora deseja nos olhos dos filhos. O violentado que é violento. Um, dos muitos, que quer se vingar do próprio pai ao atingir o pai do outro. O que odeia a mãe e quer a morte sofrida da mãe de todos. Cego, descontrolado, resignado ao próprio trono do império que é si mesmo. Abandonado, bestializado, sombrio ele dispara suas flechas ao redor de seu templo. Conclama seus insetos a lutar uma luta que não deveria ser sua. Ele tenta afastar os demônios que assombram seu desejo de vingança. Mas o demônio para ele vem de dentro, e rasteja por baixo do altar ao seu encontro. Eu sou o demônio, do lado dele do rio.

Sou taça que se quebra, exaurindo a última dose de vinho do fanático pelo chão da casa santa. Água transmuta em vinho, vinho em vinagre ao encontrar o chão do fanático, que não se apercebe já ferido. Continua em sua ira a disparar as flechas, e vai até as flechas lançadas, e recoloca todas no arco, e volta a atirá-las para outro lado. Eternamente o fanático anda de um lado para o outro do corredor recolhendo suas próprias munições, apenas para gastá-las novamente. A sensação de orgasmo mórbido por atirar flechas, mesmo que nada atinja. Mesmo que nada possa atingir.

Do outro lado do rio das mortes, o pesar. Luto como substantivo, luto como verbo, ambos ardendo nos rabiscos que eu tecia pelo chão de pedra. As palavras corroíam, mas aquilo era eu mesmo. Eu e ele, espelhados, simétricos ao longo de um rio, primos, números tão próximos, decidindo um com palavras e outro com flechas de quem seria o primeiro sangue. E que ele sangrava primeiro, era a realidade posta. Que eu preferia que minha dor também saísse de dentro e se espalhasse pela pedra, não seria exagerado nem mentiroso. Mas do meu lado do rio as armas eram feitas de ar puro e terra firme. Nenhuma flecha desperdiçada. Nenhuma bruxa esquentava o caldeirão em vão. Nenhum mago olhava para o céu sem buscar em si mesmo a mais poderosa das armas. Eu não desenhava flores.

Todos os espelhos despedaçados na casa do fanático. Caco de vidro agora também tocava o vinho derramado e os pedaços do cálice do altar. Minha sombra de muitos braços, crescida por baixo do altar, sufocava e eu sabia, pois podia sentir, como se ele se debatesse contra meus próprios dedos, que pressionavam, e pressionavam, e pressionavam. A misericórdia já havia desmaiado antes dele.

Ele, que não tinha mais ar, regozijava-se em êxtase. Seu arco quebrado, a madeira rústica arranhando o punho. Agora que não podia atirar as flechas, ele enfiava em seu próprio corpo. Feria as mãos, feria o pescoço, feria o coração. Vazava os olhos, debilitava os joelhos, rasgava os pés. Intestino, pulmão e coronária. Todos dizimados pelo fanático e suas próprias flechas. Afogado pela sombra, quão doce teriam sido seus descansos na porta do paraíso se tivesse deixado que o sono viesse antes do fim da ira…

O fanático desfalece no corredor principal de seu templo maldito. Não sabe se o seu sangue que é vinho, se é o vinho que é seu sangue, se o que penetra suas costas é o que um dia foi taça ou o que um dia foi espelho. Se o telhado caiu, ou seu cadáver que ascendeu. Se o que caiu foi ele, ou se o chão subiu e o carregou. Um momento sublime ele encontra, antes de perceber, enfim, que estava preso em seu próprio paraíso, desprovido de companhia.

Eu, exausto do outro lado do rio, tão sujo quanto ele. Um assassino místico. Mas o ar não me falta. Meus desenhos no chão, minhas palavras no papel, tudo fadado a desaparecer com o ritmo dos anos e com a perduração do esquecimento dos povos. Meu perdão postergado até a destruição de todos os deuses e a ascensão do mais piedoso dos divinos. Um dentre muitos. Uma noite a não ser comemorada, dentre muitas outras que foram, dentre muitas outras que virão. As bruxas cujas silhuetas contemplo perto do círculo de pedra, os sábios a apontarem para o céu, todos que em breve podem ser transformados em pó. O fanático, quando atacou o vento, ameaçou a mim mesmo e aos que são meus para cuidar. Ao tentar ferir a lua cheia, feriu também o céu embaixo dela. O vento veio a mim e me escolheu para protegê-lo. E eu então fiz a tarefa que ninguém deve ter vontade de cumprir.

Que fosse o último, desejava. No entanto, era mentira e eu sabia. Seria o primeiro sangue derramado. Apenas a primeira taça entornada e fragmentada. Apenas a primeira troca. Não haveria perdão. Haveria apenas mais e mais dor. Da minha semente brotariam mais curvas, mais versos, mais parágrafos; da semente dele, pequenos homúnculos que, como seu criador, buscarão as lágrimas suas no choro de outra criança. Buscarão saciar a raiva do pai de si mesmos no pai de outro. Remontar o próprio cálice destruindo o cálice dos reis. Um ciclo eterno, tépido, turvo. A guerra das armas etéreas refletindo a guerra dos paus e das pedras no reino além, onde já não existem mais pastos verdejantes, nem passarinhos que cantam, nem frutas que não sejam tóxicas. Agora, nessa guerra que não é declarada, a queda do reino dos mortais tenta acinzentar os reinos que não são seus para destruir. E todos, de todos os reinos, precisam pegar em armas para que a decadência não aflija também os horizontes imaculados.

Por muitos e muitos anos eu devo continuar a jornada do vento, rabiscando o chão de pedra, firmando a terra sólida, escrevendo a história obscura dos nossos tempos. Quando a última carta for virada, quando o Sol surgir ao fim da madrugada longa, apenas então voltará a doçura e o cantar dos pássaros, que não mais terão medo de voar.

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No bairro da Barra Funda, cidade de São Paulo, há um antigo casarão. Verdes claras foram suas paredes grossas e firmes, ostensivas as telhas que compunham seus telhados, ornamentados os ângulos na melhor das épocas. Janelas amplas, vidro, moldura, três cruzes a cada um dos lados do casarão. Triângulos, círculos e serpentes corriam o reboco, harmônicos, contando uma história sem começo, sem meio, sem final. Cíclico ao redor do paralelepípedo. Eterno, ao mesmo tempo em que limitado pelo espaço.

Neste casarão viveu um artista proeminente. Augusto é o único que restou de seus quatro ou cinco nomes. E ele vivia só. Apesar disso, gastava suas tardes, suas manhãs e suas noites a reparar em como passeavam os pedestres. Como os homens nem sempre eram homens, as mulheres nem sempre mulheres, os adultos às vezes crianças, crianças vezes idosas, mortos vivos, vivos enfermos. Mesmo a verdade, que lhe parecera por tanto tempo tão singela, escondia por baixo de suas roupas chagas horríveis, que perturbavam para sempre aqueles que fitavam. A marcha dos dias, dos apressados e dos calmos, indo para o leste ou voltando do norte, perdidos rumando ao sul, estagnados no oeste do mundo. Milhares e milhares passavam. Augusto via, mas nada falava. As ruas sempre tinham a palavra final.

Todos os dias tinham um meio-dia no maior relógio da igreja que confrontava o quintal do casarão. Quando o Sol estava sobre a casa, mesmo quando escondido por trás das nuvens mais carregadas da tempestade que, ora vinha, ora não, Augusto entrava num dos cômodos vazios, que eram muitos, pois era hora de trabalhar.

Grande casarão para um só habitante. Augusto não tinha móveis, e suas roupas eram poucas. O vazio tomava conta de quase toda a casa. Quando não mais houvesse um vazio, era o próprio Augusto que, com suor e dedicação, levantava por si mesmo um cômodo novo, apenas para deixa-lo vazio, apenas para que o vazio fosse. Assim, ao badalarem as doze notas do meio-dia, ele se deitava ao centro do chão de madeira, empunhava seu bastão longo com pincel preso à ponta, e se postava a pintar quadros no teto. A maior de suas alegrias era sentir o bastão em seu punho, para cima, para baixo, para os lados, pintando seus delírios e suas histórias, no abandono lascivo de sua criação.

Hoje, são poucos os detalhes que podem ser apercebidos com alguma nitidez ou clareza. Mas, ao que tudo indica, a cada cômodo Augusto contava uma parte da história de uma grandiosa plateia que esperava para ver a apresentação musical de um suíno antropomorfizado. Um porquinho. Mas não era qualquer porco. Esse porco tinha nariz como o de um tamanduá, longo, porém rosado. E seu rosto trazia um semblante quase humano, inquisitivo, pronto para falar algo que mudaria o destino de todos que pudessem ouvir. A voz que faltava para que o trânsito cessasse, a cidade convulsionasse, a ordem se estabelecesse diante do caos da vida.

No salão principal do casarão, próximo à porta de entrada, no teto são pessoas perdidas, passos desencontrados, como que procurando seus assentos no teatro do céu da casa. Andantes, bem arrumados, de uma época que não era bem aquela, mas talvez não fosse época alguma. Almas presas num espaço além da física, costuradas no purgatório da alvenaria do início daquele século, sujas pelo vento da cidade exterior. Presas, procurando um lugar para sentar. Não se vê o porco.

O protagonista da cosmogonia de Augusto nasce no segundo cômodo, que outrora pode ter sido um quarto de hóspedes, nunca frequentado. O porco lê um grande livro de partituras, concentrado, tentando fazer algum sentido daqueles símbolos humanos que deveriam se tornar música e palavra. A plateia é vista ao fundo, depois de um buraco numa cortina violeta, já mais ou menos colocada em cada um de seus lugares, esperando pelo cantar do porco.

No teto do que um dia possivelmente foi cozinha – pois há restos de pias e de fogões – o porco entra no palco, aplaudido pela solene plateia. O microfone no pedestal é muito mais alto do que o porquinho consegue alcançar, mesmo dotado de um grande nariz de tamanduá. Seu semblante bravo e tempestuoso poderia, n’outros contos, trazer uma simpatia folclórica, talvez remetendo a uma fábula jocosa. No entanto, no teto da cozinha, o olhar do porco bravo traz horror, remorso, culpa, raiva a quem observa muito tempo, apenas pela lembrança de que quem colocou o pedestal foi um humano, um humano indelicado, arrogante, pernicioso, ardiloso e desonesto. O porco ia se atrasar, e a culpa era de todos nós que erramos.

Hoje, pouca luz consegue invadir o ambiente que fora o banheiro. Os cômodos adicionais construídos por Augusto eram levantados conforme um improviso tosco, sem muito planejamento, de forma que alguns cômodos tampavam as janelas de outros, e, não raramente, alguns cômodos ficavam dentro de outros cômodos, como cabanas de tijolo e concreto. Pois um desses cômodos escuros era o banheiro, do qual restam poucas ruínas de um aquecedor e de um chuveiro. O porco começa a falar para o público, que contempla, emocionado, as primeiras palavras daquele suíno, apresentando seu espetáculo e desejando as boas vindas aos que querem ouvi-lo. Vê-se, com pouco detalhamento, que o porco traz atrás de si um grande espelho bem polido, no qual a plateia enxerga a si mesma. Por um capricho geométrico, a plateia se vê sempre menor do que ela realmente é.

No quarto atribuído ao próprio Augusto, que possivelmente era o lugar da casa em que o artista dormia, a passagem é considerada uma das obras mais grotescas já encontradas na zona oeste da capital paulista. O porquinho, após terminar uma seção de vários números musicais, engole o microfone a fim de cantar uma canção suína com os próprios ruídos de suas entranhas. A plateia observa horrorizada, enquanto o porco, controlando com muita destreza a respiração, emite sons intestinais, raspões de esôfago, ecos e microfonias de fluido bílico. O porco traz em uma de suas patas uma faca.

Embaixo da escadaria do casarão, existiu um desenho. Agora, se veem somente restos do que parece ser um esquema anatômico de um porco doméstico.

O andar de cima do casarão era composto por um grande salão. Neste salão, o artista construiu, ao centro, três cômodos concêntricos, um menor que o outro. Em cada um dos cômodos, um desenho no teto, que complementavam um ao outro e terminavam a história do porco cantante no ápice que era o grande desenho no teto do salão.

No menor dos cômodos, o porco abre sua barriga e exibe o microfone à plateia horrorizada. Alguns estão desmaiados. Alguns choram. Alguns lamentam. Alguns poucos riem, tomados por desespero. Os mais letrados tentam convencer-se de que se trata de um truque de ilusão. O microfone é bem visível. O semblante do porco é de lucidez e fúria.

No segundo cômodo, o microfone está de volta no pedestal. No entanto, seu fio passa por dentro do porco, entrando pela boca e saindo pela barriga aberta. Pedaços de órgãos estão espalhados pelo palco. Poucos permanecem na plateia, alguns não têm forças para se levantarem e andarem. Desses poucos, uma minoria acredita estar na presença de um mártir. O porco continua cantando seus ruídos abertos de suíno autoflagelado. O espelho é a chave: por ele é que podemos ver ao mesmo tempo o porco e a plateia. Mas nesse espelho há um detalhe, não visto em outros pedaços da obra: o espelho contém, em si mesmo, outros espelhos, numa configuração fractal. A plateia olha a si mesma, que olha o porco no mundo das imagens, que olha a plateia diminuída, que olha o porco, que olha a outra plateia, que olha a si mesma, num infinito laço de luz, sombra e técnica. Um é outro, e todos são um só no infinito.

O terceiro cômodo perdeu seu teto, que desmoronou há muitos anos.

Por fim, o teto do grande salão do andar de cima é uma representação inspirada por obras renascentistas cristãs. O porco autoflagelado é posto no centro, em frente a uma grande luz divina que vem dos céus. Sua barriga exibe uma grotesca cicatriz, seus olhos encaram para baixo, nós, que olhamos. Seu focinho de tamanduá rosado é enrolado ao redor de um bastão longo e duro, com um pincel mirando para baixo, como se ele fosse o artista, e nós fossemos o quadro sendo pintado. Ao seu redor, os que ficaram até o fim do espetáculo são retratados como anjos de uma hoste celestial da religião definitiva. Os rostos são reconhecíveis desde a primeira pintura, portanto há certa permanência das personagens retratadas. Alguns estudiosos afirmam tratar-se de antigos amigos de Augusto, patrocinadores, correligionários. Isso, no entanto, não é ainda completamente comprovado, e os rostos podem pertencer a pessoas que nunca sequer existiram.

Os anjos trazem consigo harpas e outros instrumentos musicais. Há uma música insólita sendo tocada pelos céus. O arrebatamento. Acima do porco autoflagelado, uma figura geométrica parece fazer uma referência aos fractais, que antes estavam presentes no espelho. Essa figura pode ser um símbolo de que o arrebatamento desta deidade acontece o tempo todo, em todo lugar. Em outras palavras, o show do porco que abre a própria barriga é uma constante do universo, não tem começo e nem fim. Todas aquelas imagens estáticas e bem localizadas são meras representações. A realidade é o processo, e o processo é mais sutil e muito mais etéreo do que as alegorias que os artistas pintam.

Todavia, um último detalhe nesse mar de cores e formas e sons pintados causa o efeito do paradoxo, e torna tudo ainda mais rico de ser vivido. Enquanto que acima do porco há o infinito do fractal, abaixo dele há um relógio. O relógio se assemelha ao da igreja que ficava em frente ao quintal do casarão quando ali viveu Augusto. E, nesse relógio pintado, o horário é meio-dia.

Durante o último bimestre, visitou o casarão um dos candidatos a consagrado cargo governamental. Ele elogiou a sensibilidade do artista, antes de anunciar à imprensa a liberação de recursos para a revitalização do casarão, transformando-o num centro cultural destinado à população local. As fotos oficiais foram tiradas, sobretudo, na entrada e na cozinha do velho casarão. O porco vingativo olhava o candidato, inquisitivo, perguntando sem que o candidato pudesse responder. Sem que o candidato soubesse ouvir. Sem que o candidato quisesse ouvir.

Em uma das últimas ações de campanha, o candidato leiloou aquele que, supostamente, teria sido o bastão que Augusto segurava para pintar os tetos do casarão. O bastão, na mão do candidato, já não era tão rígido e firme quanto nas mãos habilidosas de Augusto. Alguns pedaços caíam, eram suspensos por fitas e amarrações. Críticos de arte defendem não se tratar do bastão original, mas apenas uma grosseira imitação para fins de propaganda política. As discussões sobre a veracidade do bastão frouxo tomaram os círculos de conversas menos nobres da cidade por algum tempo, antes que os cidadãos se preocupassem com algo mais instrutivo.

Nas semanas que se seguiram ao longo dos anos, o candidato postergou a revitalização do local. Aos poucos, alguns pedaços do imóvel foram cedendo, desmoronando uns sobre os outros. Transeuntes, moradores de rua, famílias desabrigadas ocuparam os cômodos e neles cozinharam seus alimentos, fumaram seus cigarros, esvaziaram suas garrafas. Nasceram e morreram ao olhar da plateia e do porco, presos no concreto. Os corpos apodreciam, eram mastigados pelas baratas e pelas moscas e pelos esfomeados, e o porco e sua plateia contemplavam estáticos. O olhar do suíno, inquisitivo, desde a cozinha, amedrontava as crianças e os sensíveis. Mas o casarão não conhecia mais a vida, e nem havia mais o que ser pintado. Cada detalhe se perdia com o passar do tempo, para tudo ser esquecido pela história do mundo.

Hoje, naquele casarão que existe na Barra Funda, pouco se pode observar. Tudo o que sabemos se dá por meio dos registros mais antigos, dos jornais e das revistas de variedades. O que se espera, agora, é o sopro final, de um vento qualquer, que desmonte por completo tudo o que resta das ruínas do antigo casarão. O golpe de misericórdia que faça moverem os moinhos da burocracia, que movam as canetas que assinam os documentos que transformem o terreno num estacionamento.

Enquanto não chega o último sopro, os que afirmam serem herdeiros, ainda que sem nome, daqueles que viveram dentro do casarão, avisam em tom de crença inabalável: poderão cair os muros do mundo; o porco e sua plateia continuarão a observar desde a cozinha.

Sigilo

Numa longa noite de inverno, próximo à meia noite, a fumaça envolveu o metal gélido e enferrujado enquanto eu pairava sobre o abismo do segundo andar do Universo. Os césares, imperadores decaídos, reinavam sobre poeiras e mendigos de um salão inóspito, decrépito como um cadáver de alguém sem nome. Da fumaça que subiu ao metal, serpentinas e cascavéis ao redor do caduceu que crescia por meio do vento e revelava as ruas e avenidas escondidas, ocultas, até o grande templo do centro da metrópole. Por entre imperadores de impérios esquecidos e bêbados inconsequentes e prostitutas insaciáveis caminhei sereno, guiado pelo caduceu de neblina, abençoando com esmeraldas cada um deles que cruzavam o caminho, que estes eram toda a humanidade e todos os tempos, e que eram a mim mesmo, como eu sempre serei todos eles, e voltarei a sê-los quando terminar a iniciação, e que eles serão a mim quando iniciarem.

Cinzento, dentro da madrugada, através das ideias e das memórias das luzes que emanavam dos freios e das lanternas de petróleo e tungstênio, caminhei guiado pelo Ar e pela Fumaça até os portais, de braços dados com algo sem forma, com a coragem típica de alguém que não existe – pois eu mesmo não existia. Eu não podia existir antes daquela madrugada, da mesma maneira que eu só pude conceber minha existência depois de seguir a neblina pelas tortuosas cachoeiras de asfalto e pedregulho que me conduziam para cima do abismo ao qual fui lançado. E ali, no centro do universo, quando passei pela porta, o sentido foi feito. Era exatamente meia-noite.

Dentro, os bancos vazios, eu, a neblina que me guiava, e um sacerdote de uma velha ordem da metrópole. Em minha mão esquerda a fumaça criou uma imagem de si própria como caduceu envolvido pelas cascavéis esverdeadas, nascidas de ovos colocados sobre o altar do templo. Em minha mão direita o sacerdote incrustou uma pedra azul escura, e com ela eu guardava o céu do inverno sem nuvens entre os dedos.

O metal enferrujado agora perdia o sangue coagulado, que voltava para dentro do corpo metálico e se tornava outra vez líquido. Eram, os dutos, e as pontes, e as estruturas das grandes construções cinzentas pálidas, nítidas, perfeitas. A textura áspera, sem qualquer oleosidade ou corrupção. Os aviões supersônicos, os edifícios que riscavam a órbita dos planetas, e os martelos que forjavam as lâminas mais afiadas: todos feitos de um mesmo metal, perfeito, e eu o portador daquele metal em meu próprio sangue, e em minha própria ideia.

O sacerdote fez os símbolos mágicos e ordenou que a neblina se condensasse; e eu respirei fundo, enquanto me tornava Um, e começava a existir, e pude ver brevemente minha casca ser pulverizada em partículas do tamanho de um milionésimo de um milionésimo de um átomo. Eu senti a estrutura mais fina da realidade por um segundo tão breve quanto um índice, e a fagulha divina da eletrodinâmica fez ser coeso aquilo que antes era etéreo. O que antes era uma forma de barro, errante, agora recebia o sopro da vida, vindo de si mesmo, numa inalação divina autoinduzida. As paredes e as pilastras eram reais, como o sacerdote era real, e o livro sagrado sobre o púlpito, e o caduceu, e as serpentes e as pedras e o relógio no átrio. A lua cheia exatamente sobre a nave, iluminando as esmeraldas que eu ainda guardava comigo, reunindo-me com todos os santos, arcanjos e deidades que formavam, de maneira muito particular e única, uma egrégora que eu pude reconhecer como sendo a mim mesmo, pela primeira vez. Vi no halo lunar, em cada cristal de gelo do alto da atmosfera, e senti na temperatura do ar frio e agradável daquela meia-noite minha própria imagem, e pude entendê-la.

Antes que meus passos cruzassem a porta do templo, o sacerdote escreveu com fogo em minha testa, com letras mágicas que nunca podem ser apagadas, um número, e esse número-cicatriz me lembraria para sempre do início do caminho, e do caminho em si, e que o deus que me iniciou não foi um que assoprou o rugido da vida em minhas entranhas inertes; em vez disso, o deus foi o que inalou por vontade própria a própria essência, e quis ser. O número pode ser reconhecido por todos os povos, que é facilmente traduzido para a língua dos matemáticos e dos cientistas. O número que me foi inscrito naquela meia-noite é cento e trinta e sete, e ele é meu símbolo.

De forma que, ao que o sacerdote iniciático fechou a porta de madeira dura atrás de mim, os que aguardavam do lado de fora agora podiam ver-me e contemplar que eu era vivo. E seguiam suas vidas, sem muitos alardes, embora não conseguissem esconder por completo que estavam satisfeitos com o que ali haviam presenciado. Era uma sensação alienígena tanto para quem passou a existir quanto para quem já existia: um nascimento, em plena praça, em pleno centro da metrópole. Assim havia sido desde muitos séculos, e assim continuaria sendo. E a cada um, uma existência completamente diferente, com configurações tão mínimas e detalhadas que jamais poderão ser completamente descritas.

Ali, para todos que vissem, estava o iniciado do Ar e da Neblina, o que carrega o Caduceu e as Duas Cascavéis na Mão Esquerda, e o Céu Azul de um Dia de Inverno Sem Nuvens na Mão Direita. O Cento e Trinta e Sete, da Meia-Noite do Templo do Centro da Metrópole. O Coro Angelical que faz Dormir e Acordar, que é Trégua e é Guerra. O que foi escrito com Fogo e escreve com Tinta e com Hádron. O que Traduz e é Traduzido, e Inventa e Comunica. O que não tem medo da Madrugada e nem da Rua Erma. O que vê o Abismo e Respira. O que não pode ser proibido de Saber, e também não proíbe. O que é Santo, ainda sendo Bêbado inconsequente, ainda sendo Imperador de um império distante e esquecido, ainda sendo Prostituta insaciável em busca do melhor dos Vinhos.

Eis o conto do meu nascimento, sob a proteção das asas metálicas da Mãe e dos trovões potentes do Pai, com tantos detalhes quanto posso lembrar, naquela noite de inverno, antes e depois da meia-noite. O que é escrito é verdade, e dou fé. Esta é a história da criação do sigilo, e ele é imortal e indestrutível, pois é uma representação de algo que existe além da vontade das leis dos homens.

23PM

De tempos em tempos, o céu fica nublado e cinza. O Sol fica escondido por detrás dos isótopos que pairam pelo éter, contaminam o céu, fazem pesar um ar limpo e puro, do qual o nitrogênio se torna tóxico, o oxigênio não queima, e tudo é poeira e partícula. Uma grande sombra cresce, de dentro para fora da realidade do mundo. Cheiro de morte e papel queimado, um silêncio quebrado tão somente pelos cacos daquilo que um dia o mundo desistiu de continuar construindo. Ruínas de lugares que nunca ficaram prontos. Memórias de pessoas que não conseguiram existir. No meio de toda ruína, pedra e ferrugem, eu continuo vagando. E lendo. E traduzindo. E ressuscitando.

Olá, e sejam bem vindos, meus caros amigos e amigas. São 11 horas da noite. Há muito, muito tempo eu comecei a andar por essa cidade abandonada, jogada às traças da História, como uma espécie de jornada pessoal para buscar, em meio a todo o caos de letras que eu não consigo pronunciar, registros de vida de uma civilização que não existe mais. Meu nome não importa. Eu sou um andarilho da cidade evacuada. De todas as vezes que me afastei, fui de volta puxado. Os rabiscos dos fantasmas não me deixam. Eles me chamam, para tirar de cima de cada pedaço de papel velho as pedras que choveram das nuvens cinzas. E eu continuo.

Existe, do lado de fora dessa grande e decrépita não-cidade, um vasto universo. Ele tem cores, e formas, e sons, e mensagens. Aqui, no entanto, tudo o que vejo é como se fosse um grande buraco por onde o universo se cruza, entrelaça, cria e destroi simultaneamente. Como se aqui fosse o ninho das partículas virtuais, a fonte da luz ultravioleta mais intensa, o silêncio que existe entre duas notas seguidas de uma música, o espaço em branco dentro de uma letra que compõe uma palavra que compõe um livro. A carta entre o 10 e o valete. O meio do caminho. A encruzilhada. O portão que não leva a lugar algum. O penhasco do vento violento. É nesse meio de estrada que vieram parar esses registros. Eles querem dizer algo. Eles precisam dizer algo. E alguém precisa revelá-los.

O que desperta o fim desperta também a mim. Em meu sono, eu sonhei com o mundo que há do lado de lá. Ao acordar, senti um temor, um calafrio estranho. Não era do tempo imprevisível, não era da chuva e nem do calor da radiação. Era como um grito surdo, de uma horda de demônios que anseiam por voltar a habitar os lugares dos quais foram exorcisados há muitos anos. Eles passaram por uma avenida ao lado do prédio onde eu me acomodava em meu longo dormir. E sussurravam, felizes, num silêncio infernal.

Esses demônios, antes difusos, juntos formam algo que é maior que a soma deles todos. Formam uma espécie de formigueiro, um organismo, uma coisa mais ou menos concreta, quase como uma vida em si, formada de pequenos fragmentos de vida. Esse cadáver lúcido rastejava pela avenida, enquanto eu espreitava, pela janela quebrada, sem que eles me vissem. Se vissem, o que mudaria? Talvez não mudasse nada. Talvez haja piedade naqueles demônios que estão voltando para o mundo do qual foram expurgados.

Minha mensagem é de alerta. Os portões estão abertos, talvez pela ferrugem nos cadeados, ou talvez alguém queira ter aberto. Jamais saberei. E jamais saberei se alguém poderá fechá-los. Não existem pedágios nas rodovias da realidade. Existem apenas vontades e faltas. E, nessa velha cidade vazia cujo prefeito sou eu, toda a vontade e toda a falta de vontade se encontra. E tudo é. E não é.

Acompanharei as movimentações estranhas que por ventura pulsarem deste lado da realidade, do lado de dentro do espelho e do esgoto. E retomarei as traduções dos lamentos e dos sonhos dos que aqui haviam, e agora não mais são.

Encontro vocês no ruído!

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Claraboia

Claraboia era uma formiguinha muito esperta e muito curiosa. Ela era operária, e não sonhava em ser guerreira nem rainha, pois não via sentido em fazer guerras ou mandar nas outras formigas apenas por ser maior ou mais forte. A força, para ela, era fazer o que gostava de fazer – e, em seu caso, isso era carregar folhinhas de arbustos e ver as maravilhas do mundo no caminho de ida e volta.

É verdade que, de vez em quando, Claraboia entrava em grandes enrascadas – ou aventuras – por causa de sua curiosidade. Incontáveis vezes ela andou, andou, e andou, e o mundo se retorceu, e dobrou, e curvou, e, para ela, tudo continuou sendo uma linha reta, com eventuais desvios. Mas quando parava e tentava retornar, todo o resto havia sumido. Suas amigas, os arbustos, as pedras pareciam completamente diferentes. Até mesmo o formigueiro parecia outro!

Claraboia, um dia, enquanto andava em suas linhas retas sem se preocupar com as curvas que o mundo pudesse fazer, pensou que, embora tivesse corpo de formiga, jeito de formiga, comportamento de formiga e até cheiro de formiga, ela não era só uma formiga. Ela queria ser um pássaro, e ela pensou que podia mesmo ser um pássaro sem fazer muito esforço. Afinal, enquanto andava nas linhas retas, as vezes o mundo encolhia e alargava, bem embaixo de seus pés, e ela não sentia dor ao voltar ao chão. Ela voava… Ela voava! E não fazia esforço algum para voar.

Era estranho para Claraboia entender o que significava ter voado. Afinal, tudo embaixo da terra era tão organizado, sua casa, suas companheiras, a rainha e os guerreiros, os túneis, as formiguinhas novas nascendo com asas que logo sumiriam, os estoques de comida, os caminhos de ida e volta, a vida e a morte…

As confusões só aconteciam pra cima da terra. Enquanto embaixo não faria qualquer sentido voar – e, mesmo que ela voasse, de nada ia adiantar, pois eventualmente bateria nas paredes e sentiria dor -, lá em cima o mundo parecia não ter fim, então voar era necessário para qualquer ser que entenda o mínimo sobre as próprias vontades. Era como se ela pudesse começar a buscar uma folhinha de arbusto lá naquele clarão que mora no céu, e andasse para cima, e andasse, e nunca terminasse de andar, e de repente percebesse que o clarão do céu e a escuridão da terra estavam em distâncias iguais de suas anteninhas.

Um dia, Claraboia, sem fazer muito esforço, percebeu que estava numa viagem longa, sem volta, e que a mudaria completamente. O mundo acima da terra estava reto, como de costume. Ela andava e andava, no caminho ensinado por suas companheiras, que levaria ao arbusto próximo, que teria folhinhas secas para servir de agasalho e comida. De repente, não mais que de repente, o mundo parecia ficar estreito, e o caminho mais estreito ainda, e ela pela primeira vez se sentiu rodopiar para cima e para baixo enquanto andava naquele caminho. Ela percebeu o mundo ficando menor lá embaixo, mas existia um caminho que ela podia andar. Era como se um galho de árvore bem fino e bem mole, que levava até o céu, tivesse ficado em seu caminho – e ela, sem perceber, já o escalava avidamente, talvez por impulso, talvez por curiosidade, talvez por birra… Quem sabe? Talvez ela simplesmente queria mesmo ver como era o outro lado do céu.

Para sua surpresa e seu espanto, o galho de árvore muito fino e muito mole pelo qual ela escalava até o céu não era o único. Muitos outros começaram a se debater em seu caminho, e ela podia facilmente se perder se errase os passos. Mas, afinal, ela não poderia mesmo se perder – pois ela sequer sabia aonde Aquele caminho levaria, então que diferença iria fazer trocar de caminho para outro tão desconhecido quanto aquele? Não importava, no final das contas, que caminho ela tomaria. O que importava é que ela queria ver o outro lado do céu.

Tão abruptamente quanto o começo de sua jornada foi o primeiro descanso. Ela parou num platô em que, aparentemente, todos os caminhos se encontravam. Parecia o alto de uma grande colina, e de lá ela podia ver o mundo tão pequenininho embaixo dela…Ela ficou triste, por um instante, por poder ver tanto, e não poder dizer nada para suas amiguinhas. Havia tanto a ser visto… O lago, lá longe, podia ter folhinhas ainda melhores. Os gafanhotos, não muito perto do formigueiro, podiam ser um perigo ou uma fonte de alimento. Os outros formigueiros podiam ter formigas tão interessantes quanto as que ela viu a vida inteira… Mas, vivendo sob a terra, talvez até suas amigas mais amigas fossem passar o resto dos dias sem saber da existência disso tudo.

Também, do alto daquela colina de caminhos que levavam até o céu, Claraboia teve medo. Medo de não achar o caminho que seguisse para cima, medo de ter que voltar, agora que já estava tão perto (apesar de não estar nem na metade), medo de falhar, medo de que tudo aquilo fosse só mais um pedaço de chão e que logo, logo, ela voltaria às pedras e à terra batida, medo de que o céu fosse mesmo tão infinito que ela não poderia nem chegar mais perto para pelo menos sentir um pouquinho do cheiro dos caminhos das grandes formigonas que habitavam lá em cima, para as quais a terra era o céu, e para as quais o céu era algo que, para Claraboia, nem podia ter nome, de tão grande.

Esperando, e esperando, passou o medo, e passou a angústia. Ela se sentiu acompanhada, mesmo sozinha. Os ventos que batiam no alto da colina trouxeram lembranças de vozes que ela nunca ouviu. Vozes que talvez fossem daquelas criaturas grandes, que vivem em cima da terra, e pisam em tudo, e trazem morte e destruição por onde andam, e, mesmo tão poderosos, não podiam levantar tanto peso sobre as costas quanto ela, Claraboia, e suas amigas operárias, podiam. A ilusão de poder, percebia agora Claraboia, era a completa falta de poder. Ela e as outras formiguinhas usavam a força para trazer folhinhas secas e abrir túneis para ficarem quentinhas no inverno, para poder comer, dormir, proteger a si mesmas, os guerreiros, a Rainha e até mesmo as formiguinhas pequenas que ainda nem existiam. Os grandes de cima da terra usavam a força para pisar e sujar. Mas agora, percebia também ela, se não fossem os grandes de cima da terra, ela não poderia chegar tão perto do céu.

Era como se todos os sonhos mais absurdos fossem verdadeiros de repente. Lá estava ela, no topo de um dos grandes de cima da terra, no lugar em que todos os caminhos se encontram. No alto da colina. E precisava continuar subindo, e não sabia como. Segundos se passavam, mas, para a vida de uma formiga, cada segundo era muito tempo.

Claraboia seguiu por um dos caminhos que achou mais promissor, e quis andar até a borda daquele mundinho que era o topo da colina, talvez para encontrar outro galho que continuasse a jornada. E ela encontrou bem rápido. Dessa vez o galho era mais grosso, então o zigue-zague na espiral dos sentidos cima-baixo não causaria tanta tontura. Ela andou, e andou, e o mundo rapidamente começou a flutuar sob seus pés de formiga.

O chão começou a ficar maior, maior, maior, maior… Antes de voltar a ser menor que as pedras das quais ela desviava, no entanto, um outro bicho, peludo, espécie de passarinho que girava a cabeça para todos os lados, agarrou seu caminho e fez o mundo ficar muito menor, muito de repente. Então era assim que ela chegaria ao céu? Tudo o que ela precisava ter feito aquele tempo todo era cair da colina e ser apanhada pelo passarinho que tudo vê?

Muitas respostas, muitas perguntas. Enquanto o mundo ficava ínfimo, ela via todos os pequenos galhos miúdos, finos e curvos pelos quais ela subiu, e que levaram, agora via ela, até o topo da cabeça de um dos grandes que pisam na terra. Junto com ele havia outros três, ou quatro, num círculo perfeito e cinza. Ela percebia, agora, também, que também não era só uma. Ela era preta. Mas também era branca. E era amarela. E era vermelha. E todas as cores se uniam em seu pensamento, agora que o mundo era uma coisinha escura e disforme, agora que o clarão do céu ficava mais e mais claro.

Ela estava lá. Claraboia estava no meio do caminho entre o céu e a terra. E agora ela sentia um cheiro, e para ela não podia ser outra coisa. As formigonas do céu, as quais tinham nosso céu como terra, e algo inominável como céu, existiam claramente para Claraboia. Mas, ainda assim, era só um borrão, lá longe. Quantas ela via? Eram duas? Três? Uma só? Claraboia não podia saber, pois, apesar de ter ido tão longe, ela ainda era uma formiguinha. Curiosa, aventureira, mas uma formiguinha. Mas também era pássaro, pois estava voando! Por que ela não podia saber as coisas que um pássaro sabe, se ela era um pássaro tanto quanto era formiga!?

A viagem de Claraboia começou a esmaecer, ficar turva, embaçada, como se uma grande neblina tivesse se aproximado dela e do pássaro que tudo vê. Agora o caminho até o céu não parecia tão amplo, e mal podia ela enxergar alguns pedacinhos do galho grosso em sua frente. Ficava frio, e talvez o dia estivesse acabando para ela… Mas havia tanto a fazer! Ela precisava contar dos mundos e das curvas, e da colina, e do lago e dos gafanhotos! Ela precisava dizer a todas as outras formiguinhas que todas tinham todas as cores! Ela precisava contar das formigonas do céu! Ela precisava dizer que o que tinha lá em cima não era tão diferente do que tinha lá embaixo, que as confusões todas podiam ser solucionadas, que o clarão do céu não queimava, que o que parecia sempre reto podia ficar curvo mas que não dava pra ver porque elas estavam muito perto da terra! Era tanta coisa, e a neblina agora atrapalhava tudo! E ela nem via mais o pássaro que tudo vê–

Então, Claraboia percebeu. Percebeu que aquela era a viagem das viagens. Que, daqui a pouquinho, essa viagem teria outra interrupção, e que outra vez ela precisaria encontrar um caminho novo… Mas ela não podia mais contar para suas amiguinhas, nem carregaria mais folhinhas secas para o velho formigueiro, nem questionaria o poder da rainha e os motivos dos guerreiros. As vozes das formigonas finalmente chamavam. Ela queria poder se despedir daquelas que a acompanharam tantos segundos e em tantos caminhos de ida e volta… Mas esse era o caminho dos caminhos, e nada podia ser feito. Querer voltar ao que tudo era antes era proibido. Era ter o mesmo pensamento dos grandes que pisam a terra e se acham poderosos. Não. Ela precisava deixar tudo aquilo passar. As formiguinhas amigas levariam a parte dela das folhinhas, e continuariam a questionar o poder da rainha e os motivos dos guerreiros. Tudo ficaria incrivelmente bem sem ela. E ela podia carregar todo o mundo lá de baixo em suas anteninhas curiosas, para sempre…

As formigonas começaram a ficar mais e mais nítidas. A neblina se dissipara. Lá estava ela, vendo tudo como realmente é, sentindo o cheirinho agradável da terra molhada e das folhinhas dos arbustos. Percebeu que, finalmente, tinha asas novamente – exatamente iguais às que ela tinha quando havia nascido, há muitos segundos, mas agora elas não seriam roubadas dela. Agora ela era mesmo um pássaro ao mesmo tempo em que era formiga. O céu era seu novo formigueiro, e não demorou para que encontrasse novas amiguinhas, tão confusas quanto ela, com experiências tão parecidas, e ao mesmo tempo tão distintas…

Era como nascer de novo, pensou ela. Mas, agora que via tudo, e tinha todas as cores, e sabia o que era bom e ruim, ela chegou na máxima realização de todas as que podia ter, e que ia muito além de nascer e morrer:

Ela era, é, e sempre será, Claraboia.